No dia 26 de julho, aconteceu em São Paulo uma audiência pública no auditório do Ministério Público Federal para tratar do extermínio de jovens no estado de São Paulo. Nesses últimos meses, o número de jovens mortos pela PM no estado alcançou números alarmantes. Segundo Daniela Scromov, defensora pública, a PM de São Paulo mata por ano entre 500 a 600 pessoas, muito mais do que se matou durante todo o período da ditadura militar (475 pessoas). Em cinco anos, a Polícia Militar de São Paulo matou nove vezes mais do que toda a polícia norte-americana.

Mas toda essa violência não ocorre de maneira aleatória. A PM tem um alvo certo. Em dez anos, entre 2001 e 2010, 93% das pessoas que morreram em supostos tiroteios com a PM em São Paulo moravam na periferia. Quase todas as vítimas (99,6%) são homens, jovens (eles têm entre 15 e 24 anos) e negros. É um verdadeiro massacre contra os jovens que, antes de serem mortos – geralmente com tiros nas costas ou na cabeça e de joelhos –, são humilhados, espancados e torturados. Sheila Eulália, moradora de Sapobemba, diz que no final de semana passado 3 jovens da comunidade foram executados quando faziam uso de álcool e drogas dentro de uma das casas da comunidade. Em seu relato ao plenário, ela disse que moradores tentaram intervir, pediam aos policiais que não matassem os jovens, mas eles foram executados diante de crianças e vizinhos. Matheus Baraldi, procurador da república, disse que a PM se tornou uma verdadeira “máquina de matar descontrolada” e pediu o imediato afastamento do comando da PM de SP.

Alguns carros da PM de São Paulo possuem o chamado “kit vela”: uma arma fria e uma porção de drogas. A maioria dos jovens assassinados pela PM é enterrada como indigente e sua morte é justificada como “resistência seguida de morte”. Depois de torturar e matar, os policiais “plantam” a droga no local do crime, como aconteceu no caso do publicitário Ricardo Prudente de Aquino, que teve repercussão nacional. “Muitas famílias da periferia que procuram jovens desaparecidos acabam encontrando eles no cemitério”, disse uma mãe que teve seu filho de 16 anos executado pela PM. Emocionada, ela falou: “o negro e o pobre querem viver”. Todos esses crimes sequer são investigados. Pois quem investiga os crimes cometidos por PMs é a própria PM. Durante a audiência pública, foi exigida também a federalização desses casos.

Vladimir Safatle, professor da USP, defendeu recentemente a extinção da PM (FSP, 25/07). Essa também foi a exigência de muitas pessoas que estavam na audiência pública, inclusive parte dos componentes da mesa. A polícia não pode mais ficar nos moldes definidos pela ditadura de 1964. De fato, o problema não é o de garantir uma “melhor formação da PM“. Trata-se, antes, de exigir a desmilitarização da polícia, de acabar com a lógica militar vigente no Brasil para o policiamento urbano, pois, como argumentou Safatle, “a população não equivale a um inimigo externo”. A juventude de São Paulo sente na pele a violência e a truculência da PM. “Pagamos com nosso dinheiro os algozes de nossos filhos”, disse uma mãe que também teve seu filho assassinado pela PM.

 Francine Iegelski, é militante da JR em SP

Audiência discute o extermínio de jovens pela PM em São Paulo

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