A União Nacional dos Estudantes realiza tradicionalmente no mês de agosto uma jornada de lutas, em conjunto com outras entidades estudantis como a União Nacional dos Estudantes Secundaristas (UBES) e a Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG).

Neste ano, parecendo sintonizada com a situação aberta em junho a Jornada de lutas foi convocada para os dias 28 de agosto a 7 de setembro, numa convocação ampliada com outras organizações políticas e sindicais da juventude.

De fato, depois das mobilizações de junho protagonizadas pela juventude, essa jornada deveria ter sido um momento para a UNE buscar aprofundar as mobilizações que abalaram as instituições no país, e assim, ajudar a abrir caminho para o atendimento das demandas que os jovens levaram às ruas.

A pauta da jornada, positiva, ajudava nesse sentido: lutar por 10% do PIB para educação pública, a desmilitarização da Polícia Milita, a democratização dos meios de comunicação e a reforma política.

Mas não houve organização da UNE para a jornada que praticamente não saiu do papel. Tudo que se viu foram alguns poucos atos por “Fora Globo” no dia 30 de agosto, e uma tímida participação no Grito dos Excluídos em alguns lugares.

Tudo muito distante do discurso exaltado da presidente da UNE que durante a posse da entidade em agosto, dizia que essa nova gestão “foi empossada pelas ruas em junho”. No discurso ela disse também que a “UNE não tinha sido atropelada porque um ônibus não pode atropelar quem está dentro dele”. Mas o que se viu agora é que a direção da UNE botou o pé no breque e a jornada, na prática, não foi organizada. Enquanto isso a direção da UNE decidiu se enfiar nas articulações com a OAB, a CNBB e o Movimento de Combate a Corrupção Eleitoral (MCCE) por um projeto de iniciativa popular de reforma política.

Um projeto na verdade de reforma eleitoral, propõe o financiamento público de campanha, mas, na onda da judicialização da política, pede a interferência da justiça nas eleições internas dos partidos. E finalmente pretende que esse congresso, a instituição mais questionada pelos que saíram às ruas que nele não confiam, faça essa reforma.

É isso que corresponde ao vigoroso movimento protagonizado pela juventude? Ou a direção da UNE, ao não organizar a jornada e enredar-se num projeto apresentado a esse Congresso, ao contrário, afasta-se do que as ruas mostraram? Ficamos com a segunda alternativa.

Todas as questões levantadas nas ruas, como transporte, educação e saúde pública estão a para serem atendidas. A UNE poderia ter feito da jornada, mobilizando os estudantes, um momento para voltar a exigir o atendimento das reivindicações.
Essa é uma reflexão que deve ser feita, desde as entidades estudantis de base.

Luã Cupolillo, é militante da JR em São Paulo – SP

* Publicado originalmente no Jornal O Trabalho n° 737

A Jornada que não se viu…