Um dirigente nacional do MPL publicou recentemente um texto de balanço onde afirma “após 11 anos de dedicação ininterrupta ao MPL afirmo que o MPL chegou ao seu fim”. Em junho de 2013 este movimento ganhou notoriedade nas manifestações, impressionou jovens arrastando milhares as ruas e foi assediado pela mídia. No entanto, apenas dois anos após as manifestações o que parecia ser a novidade “chegou ao fim”.

Esse dirigente que foi uma das principais lideranças do MPL revela as consequências da horizontalidade e do isolamento das lutas dos trabalhadores. Em determinado momento, exaltado como uma nova direção que utilizava novos métodos, esta “novidade” não suportou a grande vaga de massa que abalou o país em 2013.

Analisemos melhor o que diz esse dirigente.

A horizontalidade contra a democracia

Esse dirigente diz “A horizontalidade, expressa na divisão e na rotatividade de tarefas – que seria fundamental para consolidar uma democratização de saberes e não consolidar posições hierárquicas – resultou em uma ojeriza à especialização, como se fosse um grande pecado alguém ser mais capacitado que o outro para uma tarefa, ou como se fossemos igualmente bons em todas as atividades”. O que deveria servir para organizar e democratizar o movimento, na verdade causava confusão e desorganizava. Era algo como todo mundo faz tudo e ninguém sabe o que fazer.

Sobre a dita democracia que a horizontalidade proporcionaria, diz: “A discussão democrática – fundamental para a oxigenação das mobilizações – abriu espaço para a rediscussão eterna das decisões feita a partir da vontade individual de cada militante, como se um processo assim fosse democrático”. E, sobre o consenso como regra para dirimir todos os problemas e divergências, ele prossegue: “Passamos a querer alcançar o consenso em todas as questões, nas estratégias do movimento, nas táticas de luta, nas formações a serem feitas, uma dinâmica que produzia reuniões muito longas e exaustivas”. Para concluir que: “Como consequência dessa concepção peculiar de consenso, a discussão pública tornou-se tabu”. Nota-se que o que não existia com a horizontalidade é a democracia. A discussão aberta e livre era tabu, não se podia fazer! Qualquer divergência ou desacordo não se decidia por uma votação onde valeria a vontade da maioria, senão uma minoria que decidia qual o consenso seria adotado.

Mas alguém pode se perguntar então, como e onde eram decididas as posições, quem dava a palavra final. Explica esse dirigente: “Prevaleceu – se não formalmente, ao menos na prática – a manutenção da lógica dos grupos de afinidade autônomos em detrimento da formação de um movimento amplo e horizontal. Essa lógica, que deveria potencializar a militância a partir da construção de laços fortes de confiança entre as pessoas, mascarou a formação de grupos de afinidades pessoais que funcionavam como um filtro para selecionar os interessados em atuar no movimento”. Ou você tinha afinidade com algum grupo ou não era bem vindo. Todo o ensaio de democracia nas assembleias sob as regras da horizontalidade tinham suas decisões tomadas por tais grupos onde os iluminados definiam os “consensos”.

Dessa forma ampliam-se as contradições: “Nesse cenário, a criação de grupos exclusivos de mulheres – em diversas unidades da federação – resultou na cristalização de espaços de poder dentro do movimento, aos quais nem todas as pessoas tem acesso às informações, servindo como espaço de formulação política e desqualificação de posições. Uma vez que este espaço está fora de qualquer esfera de controle democrático no movimento, foi possível que pessoas que já haviam saído das instancias regulares de militância continuassem a frequentá-lo, participando das disputas dos rumos do MPL.”. Não havia forma da base controlar a direção, pois inexistiam mandatos. Eram os grupos pré-estabelecidos por afinidade que definiam o que e como fazer. Mas não só, havia aqueles que de fora do movimento disputavam posições! E se não concordasse, era defenestrado: “A crítica a esse espaço é vista como machismo e aqueles que a fazem são marginalizados e detonados nos fóruns informais do movimento. Assim, aqueles e aquelas que não se identificassem com esse tipo de feminismo não teriam lugar no MPL”.

Não há saída fora da luta dos trabalhadores

Sobre qual o terreno é necessário realizar o combate, esse dirigente do MPL destaca que “o movimento não conseguiu caminhar para a reorganização – nacional e local – necessária para superar seus anteriores e, ao sermos incapazes de fazer isso, nos fechamos entre nós mesmos”. Mesmo dirigindo em certo momento milhões de jovens nas ruas o MPL não foi capaz de abrir uma saída a estes jovens, senão que se isolou cada vez mais no cenário das lutas.

É o próprio dirigente que tenta justificar afirmando que “Considerávamos essa a única perspectiva correta de atuação e, portanto, seriamos superiores aos demais agrupamentos da esquerda: assim articulações eram feitas preferencialmente com aqueles que tinham acordo com esses princípios, ou por vontades individuais de algum militante, mas não a partir de lutas concretas”. Buscando uma saída aos problemas de organização de outros grupos que criticavam, o MPL não se percebia inserido no contexto da luta de classes e não se pautava pelas lutas gerais.

Essa posição auto proclamatória e cada vez mais confusa e desorganizada não poderia conduzir o MPL a outro caminho: “Considero que o MPL ao não se pensar como um movimento inserido nas dinâmicas de lutas mais amplas dos trabalhadores e trabalhadoras, foi incapaz de superar seus próprios limites. Pensávamos que estaríamos imunes aos processos de burocratização que ocorrem em mobilizações vitoriosas. Entendo que a potencialidade transformadora de um movimento não é medida pela radicalidade de sua pauta, mas sim pela maneira como a mobilização em torno dela é capaz de produzir novas dinâmicas e experiências de luta. Por isso entendo que ao olhar para o próprio movimento e não para o transporte inserido na dinâmica da luta de classes, o MPL deixou de ser capaz de criar novas estruturas políticas e sociais, chegando ao seu fim”. Não há perspectiva política por fora da luta dos trabalhadores. A luta pelo transporte e de qualquer outra pauta está inserida na luta de classes, portanto só terá êxito se realizada conjuntamente com os trabalhadores.

Enganam-se aqueles que, conscientes ou não, buscam, diante da crise de direção, inventar “novas” formas de organização, embandeirar-se da luta pelas minorias, entrincheirar-se em ONGs como alternativa. É uma forma de negar a luta de classes e se afundar no ostracismo. Iludem-se aqueles que, em função da real insatisfação e frustração com o PT há anos no governo aplicando a política do imperialismo e em franco processo de degeneração, trilham “novos” caminhos virando-se de costas para a luta dos trabalhadores e suas organizações.

Conclusões

Em momentos de explosão de massas milhares saem às ruas, fazem sua experiência e tiram suas conclusões. É provável que como esse dirigente do MPL outros tantos estejam tirando suas conclusões políticas. Muitos devem ir para casa frustrados sem ter respostas, outros foram integrados a todo tipo de organização, e outros tantos buscam, de alguma forma, os meios de lutar. São jovens e dirigentes que devem estar nas manifestações de rua neste momento, em escolas, bairros, fábricas, universidades, nas periferias…

À luz da experiência e das lições desse movimento é possível que muitos desses jovens simpatizem e se disponham a se organizar e a lutar pelos seus direitos e por um futuro com uma organização autônoma da juventude.

Todos estes que buscam uma organização independente merecem atenção.

Paulo Riela, ex-militante e ex-membro do Conselho Nacional da Juventude Revolução.

Artigo: Sobre “O MPL chegou ao seu fim”