O 54º Congresso da União Nacional dos Estudantes reuniu cerca de 10 mil estudantes em Goiânia. A principal decisão foi a convocação de uma jornada de lutas contra os cortes na Educação, que começa já em junho com um acampamento no planalto central, o Ocupa Brasília, e inclui calouradas unificadas, paralisações nas universidades como parte da Jornada de Lutas de 11 de agosto, e uma grande caravana a Brasília.


A aprovação deste calendário se deveu a um verdadeiro combate dos estudantes agrupados na tese “UNE é pra lutar!”, incluindo militantes da Juventude Revolução, que ao longo do segundo dia do Congresso dialogaram com quase mil jovens, recolhendo assinaturas em apoio à aprovação de uma jornada. O   dialogo com todos os presentes no Congresso possibilitou que representantes da tese, junto com outros companheiros do Campo Popular que também apoiaram a proposta, conseguissem construir uma proposta de resolução em unidade com a UJS, organização que dirige a UNE. A resolução foi aprovada pela maioria dos delegados e diz que os estudantes não aceitarão o corte. Ela também coloca a defesa da Petrobrás e de iniciativas como a Campanha da Constituinte do Sistema Político.

“É preciso unidade dos estudantes contra o ajuste fiscal, e o congresso da UNE mostrou que é possível essa unidade. Nós precisamos de ações concretas, precisamos sair desse congresso e ir para Brasília dizer não aos cortes!” Essa foi a fala de Sarah Lindalva, candidata eleita à direção da UNE pela tese UNE é pra Lutar!, na defesa da chapa Campo Popular, que reunia outras cinco forças (Levante Popular, Articulação de Esquerda, Mudança, Esquerda Popular e Socialista e Militância Socialista), e foi a segunda chapa mais votada no Congresso.

Agora os estudantes, com suas entidades, precisam organizar atividades e chamar a UNE a encaminhar o calendário. Um passo foi dado no congresso, mas é pela mobilização na base que se pode levar até o fim a mudança de postura da direção da entidade, marcada pelo imobilismo frente aos cortes impostos  pelo ajuste, nesse início de ano.

Com efeito, um primeiro passo foi dado. Na saída do congresso os estudantes foram direto ao Ministérios da fazenda, onde montaram acampamento, exigindo o fim do ajuste fiscal e Fora Levy. Na mesma semana se dirigiram ao congresso, onde barraram a primeira tentativa de votação da redução da maioridade penal. Sarah e outros companheiros e companheiras da JR estiverem presentes.

No segundo dia do Congresso, a UNE promoveu um ato na cidade, contra os cortes da Educação. Do carro de som se ouvia vários gritos de “Fora Levy!”. Entre os manifestantes, repercutiu a funk cantado pela Juventude Revolução que dizia “fora o ministro que cortou da educação, a luta do estudante vai botar o Levy no chão”. Mas o pedido de demissão do ministro não foi submetido a voto dos delegados, por bloqueio da UJS.

Guerra de torcida
Desde o início do Congresso, os delegados da UNE é pra Lutar! se concentraram em debater e dialogar com todos os estudantes presentes, e decidiu não tomar parte da briga de torcidas que tomou conta dos Grupos de Discussão e, principalmente, da plenária final no ginásio do Serra Dourada.

Dayse Rodrigues de Jesus, estudante da UnB, conta que nunca participou da UNE porque não se reconhecia na entidade. “Chegando aqui pude comprovar toda a guerra de torcidas que tem, mas entendi na prática a importância de debater os rumos do Movimento Estudantil”, ela afirma. Julia Godoi, da UNESP Araraquara, diz que esse foi um dos principais pontos positivos: “gostei da nossa posição de não fazer parte da guerra, isso atrapalha demais, e também da nossa participação nos grupos, ficamos focados. Volto para casa sabendo a importância de fazer chegar a discussão na base e de politizar o meu Centro Acadêmico”.

Disposição ao diálogo não é a a postura das organizações que compõem a UNE.. Entre UJS e Oposição de Esquerda, principalmente, imperaram as palavras de ordem de ofensas mútuas ao longo dos cinco dias de congresso. Equivocadamente, as organizações que compõem o Campo Popular, entraram nessa lógica. Como o Levante Popular da Juventude, que na plenária final tocava fortemente dentro do ginásio para impedir que estudantes que falavam fossem ouvidos.

Reivindicações adotadas
Propostas apresentadas pela “UNE é pra lutar!” entraram na pauta da entidade. Uma delas foi a ampliação da verba para assistência estudantil, para R$ 2,5 bilhões. Paula Ferreira, da UFSC, participou do grupo sobre o assunto. “A abordagem do tema das creches universitárias foi, a meu ver, uma das mais acertadas! Dentro da comissão de mulheres da JR, havíamos discutido a urgência de divulgar a existência do decreto 977/1993, que veta a criação de novas creches universitárias, indo completamente contra as necessidades das mães estudantes.” Houve a distribuição de um fanzine sobre o assunto, e vários estudantes procuraram os representantes da tese para manifestar seu apoio.

Ana Carolina dos Santos, estudante de Biomedicina da Universidade Guarulhos, quer fazer pesquisa, mas não pôde participar de um edital do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica por ter vínculo empregatício. “O graduando recebe uma bolsa auxilio de R$400,00, tendo que cumprir uma carga horária de 12 horas semanais dedicadas ao estudo da pesquisa que foi aprovada pela instituição. O valor do auxílio da bolsa teve o último reajuste em 2013! O graduando não poderá trabalhar, mas terá que pagar mensalidade (no caso das faculdades privadas)”, ela explica. A UNE agora também defende a recomposição do orçamento do Ministério de Ciência e Tecnologia.

Unidade: não à redução!

Durante a plenária final do Congresso houve um momento de emoção entre os estudantes. Um bandeirão contra a redução da maioridade penal foi sacudido pelas bancadas de todas as teses. O ginásio gritava a plenos pulmões “Não! Não! Não à redução!” Houve grande vibração dos estudantes, empolgados por uma demonstração de unidade poucas vezes vista nos congressos da UNE, onde o comum é ver agressões verbais de uma organização à outra. A comoção mostrou que os estudantes querem se unir para defender a juventude.

Oposição de esquerda, ou de esquerdistas?
O PSOL, uma das principais forças da Oposição de Esquerda, deu um show de sectarismo. Não queria aceitar a proposta de defesa da Petrobrás como uma linha de consenso entre as forças, dizendo que seria o mesmo que defender o governo. Acabou recuando e a proposta foi aprovada. Depois, não aceitou a crítica ao aumento de juros, dizendo que é preciso ser contra a própria existência dos juros. Neste caso, eles não recuaram. Para completar, Luciana Genro, numa mesa sobre a luta dos professores da qual participou também a presidente da APEOESP-CUT, Maria Isabel (Bebel), sindicato em greve há oitenta dias, e uma representante da APP-CUT sindicato no PR, numa dura greve contra Beto Richa, não poupou arrogância: “Essa velha esquerda, o PT, a CUT, são todos pelegos”.

Priscilla Chandretti, é militante da JR em Guarulhos – SP

* Artigo Originalmente publicado no Jornal O Trabalho 766

Congresso da UNE aprova luta contra cortes na educação