Nesse dia 21 de agosto de 1940, completam-se 74 anos da morte de Leon Trotsky, assassinado por um agente stalinista em Coyoacán no México. O assassinato foi meticulosamente preparado pela polícia secreta stalinista, objetivando apagar da memória dos trabalhadores do mundo inteiro o homem que personificava a continuidade da revolução russa de 1917, dirigida por Lênin, Trotsky entre outros revolucionários.  Seu  legado, entretanto, continua vivo!


QUEM FOI LEON TROTSKY?

Liev Davidovitch Bronstein (verdadeiro nome de Trotsky), nasceu no vilarejo de Ianovka na Ucrânia em 26 de outubro de 1879. Começou sua militância ainda jovem, indignado com as lastimosas condições dos trabalhadores do Império do Czar Nicolau II. Entrou para a universidade de Odessa, onde ingressa numa organização política secreta. Após a realização de protestos, o grupo secreto é descoberto pela polícia Czarista e Trotsky vai preso. Na detenção, Trotsky é introduzido ao Marxismo através de outros revolucionários. Ainda na cadeia Trotsky casa com sua primeira esposa, Alexandra Sokolovskaya, com quem terá duas filha, Zina e Nina.

Em 1902, consegue fugir da prisão na Sibéria e chega a Londres, onde conhece Lênin e torna-se redator do jornal ‘Iskra’ (editado por Lênin). Meses depois, Trotsky vai a Paris, onde conhece sua segunda esposa e companheira para o resto da vida, Natália Sedova, com quem terá dois filhos, Lev e Serguei.

Com o estouro da revolução russa de 1905 – que Lênin chamou de ‘ensaio geral’ da grande revolução de 1917 – Trotsky retorna secretamente à Rússia, onde será eleito presidente do soviete (conselho) de delegados operários de São Petersburgo com apenas 25 anos de idade. Entretanto, a partir da derrota e do refluxo da revolução, Trotsky é preso e condenado à morte na Sibéria, mas consegue fugir percorrendo a Europa, participando das atividades da social-democracia em Londres, Viena, Berlin, Paris, Zurique, durante dez anos. Com  bagagem da experiência da Revolução de 1905 Trotski elabora sua contribuição a respeito da Revolução Pemanente e da Lei do Desenvolvimento desigual e combinado, fundamental para entender a luta pela revolução nos países atrasados.

Quando a guerra imperialista irrompeu em 1914, os partidos social-democratas, que participaram da II Internacional, traem os trabalhadores apoiando seus governos e suas burguesias nacionais. Os trabalhadores compartilham a condição de explorado, independente de sua nacionalidade, como acertadamente falou Marx: “Os trabalhadores não tem pátria”. Com a capitulação da II Internacional diante da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Trotsky e outros refletem sobre a necessidade de criar uma nova internacional.

A Revolução de Outubro e a III Internacional…

Diante da 1ª Guerra Mundial, Trotsky analisou que a guerra liberaria forças revolucionárias no mundo. Em fevereiro de 1917, intensas mobilizações e greves derrubaram o império czarista. Trotsky e Lênin deixam suas divergências de lado, unido-se contra o Governo provisório de Kerensky, preparando abertamente a tomada do poder pelo proletariado.  Até então, Trotsky, mais próximo aos mencheviques (1), era partidário de uma reunificação entre as duas  facções do Partido Social Democrata.

Depois de 3 meses de trabalho comum, Trotsky e alguns de seus companheiros (David Riazanov e outros) do grupo “Interdistrital” ingressam no Partido Bolchevique, em agosto de 1917. Em novembro, Lênin escreveria: “Trotsky disse que a unidade não era possível. Trotsky compreendeu isto, e desde então não há melhor bolchevique do que ele”.

Na foto, Lênin discursa com Trotsky ao lado

Presidente do Soviete de Petrogrado, membro do Comitê Central do Partido Bolchevique, Trotsky preparou a insurreição vitoriosa: com seu partido, as massas tomam o poder. Os sovietes se espalham por todo o país. Sob impulso direto desse movimento, nasce em 1919, a 3ª Internacional, na qual Trotsky escreve o manifesto de fundação.

Após a tomada do poder pelo Partido Bolchevique, Trotsky é nomeado Comissário do Povo para Negócios Exteriores. Em seguida foi nomeado comandante-chefe do Exército Vermelho. Durante a Guerra Civil, coube a ele a grandiosa tarefa de montar um exército a partir do nada, combatendo em defesa do estado operário contra os exércitos de 14 países, incluindo Japão, Inglaterra e EUA.

A guerra civil deixa a economia russa em ruínas, milhões de mortos e a fome devasta todo o país. Com as derrotas sofridas pelo proletariado europeu no mesmo período (principalmente na Alemanha), o estado soviético russo fica isolado e atacado pelos exércitos imperialistas. Muitos destacados membros do Partido Bolchevique, revolucionários de primeira hora, são mortos em combate.
Esta situação proporcionou a formação de um grupo de burocratas no partido bolchevique que conseguiu ganhar espaço e dominar o partido. Lênin havia percebido isso, entretanto não pode combater a burocratização até o fim, falecendo em janeiro de 1924. A partir de então, Trotsky é quem vai encabeçar a luta contra a casta burocrática e seus privilégios sobre o estado soviético.

Por conta do combate aos burocratas do partido Bolchevique e pela revolução mundial, contra a falaciosa teoria de construção ao socialismo em um só país, defendida por Stálin, Trotsky foi exonerado da direção do Exército Vermelho. Em 1927, é expulso do partido, juntamente com vários companheiros opositores da burocracia. Em 1929, finalmente, é expulso do país, tornando-se exilado na Ilha Prinkipo, perto de Constantinopla. A partir daí Trotsky inicia uma dura jornada de exílio e expulsões, começando pela Turquia, indo para Noruega, França e finalmente conseguiu asilo no México em 1937.

A CONSTRUÇÃO DA IV INTERNACIONAL

Percebendo e se opondo ao processo de degeneração do Partido Bolchevique e do estado operário dirigido por Stálin, Trotsky organiza a Oposição de Esquerda, que visava redirecionar a 3ª Internacional. Dirigida por Stalin, o organizador de derrotas, a 3ª Internacional cometia inúmeros erros e empurrava a classe trabalhadora para um beco sem saída. Em 1933, a 3ª Internacional capitula, ao recusar uma politica de Frente Única com o Partido Social Democrata alemão para combater o fascismo e facilita à ascensão de Hitler na Alemanha. Nessa ocasião Trotsky afirmou: “A 3ª Internacional está morta para a revolução”. Coloca-se então a necessidade de construir uma IV Internacional, para manter o fio da continuidade do bolchevismo.

Em setembro de 1938, é fundada a IV Internacional, cujo seu programa (o “Programa de Transição”) foi escrito por Trotsky, e afirma “A crise da humanidade se resume à crise da direção revolucionária do proletariado”

O ASSASSINATO DE TROTSKY

Os Processos de Moscou (também orquestrado por Stálin) iniciados em 1936, condenou à morte sistematicamente, alguns dos principais dirigentes bolcheviques que lutaram na revolução de 1917 (Kamenev, Bukharin, Vladimir Antonov-Ovseenko, Ivan Smirnov, Zinoviev entre outros). A campanha de terror organizada por Stálin buscava decapitar qualquer foco de resistência contra a burocracia e apagar da história todos os militantes bolcheviques que se opuseram ao stalinismo no passado ou mesmo que fizeram parrte da revolução de outubro. Nessa época milhares de membros da Oposição de Esquerda foram assassinados, deportados ou presos.

Mesmo com milhares de Trotskistas assassinados, Stálin buscava acabar com seu principal opositor: Trotsky. Em maio de 1940, agentes stalinistas realizaram uma primeira iniciativa para matar Trotsky, metralhando a casa do revolucionário que escapou ileso.

Na segunda tentativa Trotsky não teve a mesma sorte. Em 20 de agosto de 1940, o golpe final veio das mãos de Ramón Mercader, agente stalinista que conseguiu se infiltrar em sua sala, e golpeá-lo na cabeça com uma picareta de picar gelo. Trotsky entrou em coma e faleceu no dia seguinte, 21 de agosto de 1940.

O stalinismo enfim, conseguiu seu objetivo de assassinar o último dos grandes dirigentes bolcheviques da Revolução de Outubro e fundador da IV Internacional. Mesmo com sua morte, não foi possível acabar com o legado político e teórico de Trotsky. O revolucionário russo, deu uma importante contribuição para a teoria marxista, deixando um legado para as novas gerações gerações que continuam mantendo vivo os ensinamentos da IV internacional na luta pelo socialismo.

Sua história que se entrelaça com a história do Século XX e seus textos, merecem ser estudados e debatidos.

E sua luta é a nossa, porque precisamos lutar para termos direito a um futuro digno. Como disse o próprio Trotsky em seu testamento “A vida é bela, que as gerações futuras a limpem de todo ó mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-lá plenamente.”

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(1) No segundo congresso do Partido Social-Democrata Russo, em 1903, o partido dividiu-se em duas facções: os mencheviques (‘minoritários’ na língua russa) e Bolcheviques (maioritários). Na política, os bolcheviques defendiam a revolução socialista armada, dirigida pelos próprios trabalhadores. Os Mencheviques, eram a ala moderada do partido que acreditava que os trabalhadores não tomariam o poder sozinhos, sem o apoio da burguesia para instaurar a democracia e só depois implantar o socialismo.

Leon Trotsky Vive!