Para quem está habituado com a periferia das grandes cidades, não surpreende que alguns filhos da classe operária tenham se sentido impelidos a se lançar contra a Polícia Militar neste 7 de setembro.

Criados em guetos, sem verdadeiras escolas, sem alternativas para o lazer e a prática de esportes, encurralados entre o tráfico de drogas e a violência da polícia, acossados por ONGs, oprimidos pela caridade que nega direitos, esses jovens tem seu futuro roubado pela ordem social capitalista,que lhes repugna. E vivem uma situação em que a revolta popular e da juventude tem dificuldades para encontrar meios políticos organizados para se expressar e lutar.

A Polícia, humilhando (ao dar a “geral”), brutalizando, assassinando, essa polícia – militarizada pela ditadura- é a instituição que, lá, é a cara da “ordem”.

Não há surpresa quando um daqueles adolescentes, franzino, aproveita uma oportunidade e se coloca a vinte metros da odiada tropa de choque da odiada PM e, pedras na mão, desafia: “vem seus coxinha!” – como aconteceu neste 7 de setembro numa rua lateral da Câmara Municipal de São Paulo.

O que há de novo – e emergiu nas jornadas de junho – é a proliferação de grupos tipo “Black bloc”,agindo com disciplina militar nas manifestações,e que se colocam como objetivo explícito canalizar a revolta e a insatisfação difusas para a “ação direta” contra “alvos imediatos” a pretexto de “fazer alguma coisa” contra os “símbolos do capitalismo”. Objetivo que nada tem de “revolucionário”, como pretendem alguns, pois, como diz o nome, são “símbolos” que se renovam sem problemas se não é derrubado e abatido o sistema que simbolizam.

Ademais de ser um método que facilita a infiltração de todo tipo de provocador, inclusive policiais, e que provoca a desagregação de manifestações, é difícil encontrar quem acredite que a “ação direta” vai “acabar com o capitalismo”. Mas ela tem, sim, um resultado bem imediato e prático: ajuda a bloquear a unificação da revolta da juventude com a classe operária organizada, na luta por reivindicações concretas. É essa unidade o que realmente faz tremer o regime – nas suas bases, e não “simbolicamente”.

Assim, também não surpreende que, no mesmo 7 de setembro,a Rede Globo e jornais, escondam as reivindicações e manifestações dos movimentos sociais – CUT, Central de Movimentos Populares, MST e outros – e deem enorme destaque para a “ação direta” dos “blocos pretos”.
Em junho, essa mesma mídia primeiro urrou chamando a repressão e depois passou a adular a “horizontalidade”. Há aí uma coerência.

Rafael Potosí

*Publicado originalmente no Jornal O Trabalho n° 737

O Sete de setembro, a Rede Globo e os “Black bloc”*