Numa entrevista sobre as manifestações de junho, protagonizadas pela juventude, que se espalharam pelo país, a companheira Thaís Batitucci, de Juiz de Fora, afirmou que “é absolutamente necessária a unidade do povo, dos jovens, dos trabalhadores, para poder de fato arrancar as mudanças profundas e estruturais que tanto queremos.”

Acredito que é a partir daí que devemos abordar uma questão que apareceu aos olhos de todos nas jornadas de junho: a ação dos provocadores nas lutas de massa, mesclada à de grupos organizados que se apresentam como anarquistas ou semi-anarquistas.

Eles não são todos a mesma coisa. Há os abertamente reacionários, que se apresentam como defensores de uma moral abstrata (“coragem”, “honestidade”, “contra a corrupção”), como os chamados Anonymous. Sua ação, em junho, foi repetir palavras de ordem lançadas pela Veja e Rede Globo contra a PEC 37 e “prisão dos mensaleiros” (ou seja, reforçam a “judicialização da política”, a criminalização dos movimentos sociais e o “julgamento de exceção” feito pelo STF).

Há outros, como os chamados “black-blocs” que, aparecem como sendo ativistas que querem se chocar contra a propriedade privada e fazem propaganda contra o capitalismo. Adeptos do que chamam de “ação direta”, eles se preocupam em quebrar lojas, lanchonetes e estabelecimentos que consideram serem os símbolos do sistema capitalista. Nas manifestações, invariavelmente fazem carga contra a polícia – que, essa sim, não é um “símbolo” mas, concretamente, exerce a repressão.

Pois bem, está claro para todo mundo que as jornadas de junho conquistaram a redução das tarifas e colocaram na ordem do dia a exigência de melhores serviços públicos de saúde e educação. E, do ponto de vista político, abalaram as instituições políticas herdadas da ditadura militar, colocaram na defensiva ministros do STF, Deputados, Senadores e governos de diversos partidos. E revelaram um fosso entre as reivindicações e aquelas instituições. O que será que fez tudo isso? Foi o uso, por alguns, de uma máscara popularizada por um filme? Foi o quebra-quebra de vitrines e agências bancarias? Pedras e bombas caseiras jogadas contra a polícia e exploradas à exaustão pela mídia? Ou, ao contrário, foi a presença de centenas de milhares, de milhões, nas ruas de todo o país, levantando suas exigências nas famosas cartolinas?
Colocar a pergunta é responder.

A prova é que bastou o povo esvaziar as ruas para as instituições que foram abaladas pelas jornadas de junho começarem a “voltar à rotina” – sem se incomodarem com aqueles grupos, que continuam agindo, em manifestações esparsas, como no sete de setembro.

Retirada a pressão das ruas, o Congresso Nacional tenta evitar a todo custo a convocação do plebiscito pela Constituinte para fazer a Reforma Política – apesar dessa proposta ser apoiada por 73% da população (pesquisa Datafolha).

É claro que todos só podemos compreender – e apoiar – que a rebeldia questionadora da juventude muitas vezes exploda espontaneamente contra a repressão policial. Aliás, essa repressão brutalmente lançada contra as passeatas contra o aumento das tarifas em São Paulo foi o estopim para a generalização das manifestações. É a mesma repressão que se manifesta cotidianamente no genocídio da juventude (sobretudo negra) nas periferias. E que manifestou-se violentamente conta o movimento na USP, em 2011, que, justamente, lutava contra a permanência da PM no campus do Butantã.

Mas o que dizer de uma posição política que prega pela não-organização e o quebra-quebra como método de ação?

Para quem sabe que “a arma dos trabalhadores é sua organização” e que “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores” (e não de alguns “iluminados” ou “corajosos”, mesmo se a coragem e a clarividência sejam úteis e necessárias para a luta, desde que bem empregadas), a ação isolada de pequenos grupos que agem como “vingadores” é uma solução ou um problema?

O vanguardismo leva a fortalecer um movimento de massas ou leva ao isolamento de um grupo frente às massas? Ao se colocar acima da classe trabalhadores, o vanguardista acaba dificultando que as massa seja protagonista do processo. Não é tão complicado fazer uma “ação”, ou “ocupação” com 15 pessoas. Mas é muito mais difícil mobilizar toda uma escola ou universidade, passar em todas as salas para conversar com todos os alunos e convencê-los a fazer uma greve. Nesse sentido o vanguardismo é apenas um “atalho” que tenta encurtar o caminho da organização mas nem de longe pode trazer conquistas para o conjunto de uma categoria ou das massas exploradas.

E além da ausência de “líderes” ou de “estruturas de poder”, como gostam de dizer, facilitar a infiltração de provocadores, até mesmo policiais, esse método de quebrar vitrines e atacar a polícia tem como consequência inevitável a desestabilização e dispersão de uma passeata ou manifestação.

Será que é um acaso que a mesma mídia que no início das jornadas de junho exigia a repressão, logo a seguir, quando as manifestações se tornaram irresistíveis, passou a elogiar a “horizontalidade”? (quer dizer, a ausência de organização, de carro de som, de faixas, de direções reconhecidas, de partidos e sindicatos). Acreditamos que não.

Num texto sobre o anarquismo, escrito por jovens do Socialist Organizer (dos Estados Unidos) e publicado em português no site da JR, cuja leitura sugerimos para aprofundar o tema, essa questão está bem explicada. Eis um trecho:
“a oposição aos partidos políticos, particularmente um partido revolucionário socialista é integralmente ligada à oposição à “liderança”, que eles [os anarquistas, ndr] igualam à “hierarquia”.
É fácil entender o apelo desse ponto de vista. Os líderes políticos oficiais são mentirosos de marca maior, pagos por seus apoiadores corporativos. Liderança é associada à arrogância, oportunismo e conservadorismo.
Além disso, nos EUA e internacionalmente, os líderes vendidos da classe trabalhadora e oprimida são os principais obstáculos na luta por justiça social – e a responsabilidade pelo insucesso de tantos movimentos de massa e revoluções durante o último século repouso nos ombros dos aparelhos vendidos no movimento dos trabalhadores (em particular a social-democracia e o stalinismo) que fizeram todo o possível para escorar e resgatar o sistema capitalista moribundo (…).
Mas na realidade não é possível abolir a liderança em nossos movimentos. A liderança existe (e continuará a existir) em todas as lutas sociais e organizações – incluindo as inspiradas pelo anarquismo. Algumas pessoas sempre tomam inciativa.
Liderança não necessariamente significa uma minoria elitista dando ordens de cima. Liderança é uma  relação.

Quando você distribui um panfleto ou tenta convencer um amigo a participar de um protesto, você está exercendo a liderança. Mesmo uma greve espontânea ou protesto espontâneo tem líderes – alguém tem de ser a primeira pessoa a sair do trabalho ou fazer um discurso improvisado.

A questão real é: qual tipo de liderança é necessária? De colaboração de classes ou de luta de classe? Liderança burocrática e autoritária ou liderança controlada por e diretamente responsável perante o conjunto?
”

Essa é uma discussão importante para fortalecer a Juventude Revolução, que se define como “uma organização que luta contra a exploração, a guerra e luta pelo fim da propriedade privada dos meios de
produção no Brasil e no mundo”. Quer dizer, uma organização que se coloca inteiramente ao lado da luta dos trabalhadores, que constituem a força fundamental da transformação social, capaz de acabar com a propriedade privada e fazer a sociedade avançar rumo ao socialismo.

Marcius Siddartha, é militante da JR em Brasilia

Tribuna de debates: A questão dos provocadores nas manifestações