Publicamos o texto  dos jovens da organizaçao marxista estadunidense “Socialist Organizer”, que compõe junto com a Juventude Revolução o comitê de redação do Boletim Internacional de Juventude, já na edição n° 10 e que se constituiu desde uma reunião de jovens realizada durante a Conferência Mundial Aberta contra a guerra  e a exploração em 2010 na Argélia.

O Texto, escrito em 2011, traz uma discussão importante sobre a política desenvolvida pelos anarquistas, e uma comparação com a política marxista desenvolvida por “Socialist Organizer”.

Nesse momento em que temos visto no Brasil a apologia da “horizontalidade” e de outro modo da “ação direta”, identificadas com o anarquismo, atraindo muitos ativistas que buscam honestamente lutar pelo direito a um futuro a reflexão dos camaradas dos EUA nos parece fundamental e será tema da atividade de formação da JR que ocorrerá nos dias 21 e 22 de setembro  em Brasilia – DF. Confira no arquivo ou no corpo do texto abaixo.



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O anarquismo voltou a ganhar popularidade nos últimos anos. Um número substancial de jovens radicalizados se voltam, hoje, às políticas anarquistas na sua luta por um mundo sem patrões, guerra, racismo, sexismo, e todas as formas de opressão.
Há muitos ramos da teoria e prática anarquista (ou “libertária”). As formas mais comuns são o anarquismo individualista, com rejeições a qualquer forma de organização; anarquismo do estilo “Black-bloc”, que favorece a “ação direta” acima de tudo mais; o anarco-sindicalismo e comunismo libertário, com orientação para a classe operária; o “primitivismo” e anarquismo verde, que busca destruir (ou escapar) da civilização.
Apesar dessa heterogeneidade política, certos pontos políticos são defendidos por praticamente todos os tipos de anarquismo, nomeadamente:
1) Oposição a todos os governos e estados, inclusive um governo da classe trabalhadora;
2) Oposição a todos os partidos políticos.
Após os horrores do Stalinismo e o colapso da União Soviética, o anarquismo aparece para muitos como sendo a única perspectiva revolucionária de esquerda imaculada. Muitos anarquistas são lutadores por mudanças sociais, sinceros e apaixonados. Mas o anarquismo é uma perspectiva política capaz de levar derrubar o capitalismo? Nós pensamos que não.
Neste artigo, nós vamos fazer nossa crítica a partir do ponto de vista do marxismo revolucionário, como expresso hoje pelo Socialist Organizer e a Quarta Internacional, os quais se mantêm nas melhores tradicionais políticas de Marx, Lenin e Trotsky. Como nós demonstraremos, nossas políticas são radicalmente diferentes de todas as formas do Stalinismo burocrático , e o sectarismo de extrema esquerda que muitos anarquistas honestos identificam com o marxismo. Iremos explicar que o marxismo é a única perspectiva política capaz de ajudar efetivamente o povo trabalhador atingir à sociedade sem classes e sem estados que tanto os anarquistas como os socialistas têm como objetivo final.

O Estado
O termo anarquia vem da Grécia e quer dizer “sem um governante” ou “sem autoridade”. O coração do pensamento anarquista é a ideia de que o estado – isso é, órgão armado da ordem de uma determinada classe social para preservar um sistema específico de produção – é inerentemente um instrumento opressivo de subjugação de um grupo sobre outro e, portanto, o estado e todas as instituições hierárquicas, precisam ser abolidas imediatamente e substituídas pelo autogoverno  do povo: anarquia.
Muitas pessoas consideram essa perspectiva utópica. Sem uma autoridade, dizem, a sociedade humana iria se degenerar até o caos e a “lei da selva”. Por causa da “natureza humana”, sempre haverá alguns indivíduos que buscam e tomam o poder.
Mas nessa questão, são os anarquistas que estão certos. Antropologistas modernos mostraram que por milhares de anos – pela maior parte da história humana – não houve estado e nem classes sociais. As pessoas viviam comunalmente em pequenos grupos, dividindo o trabalho e a riqueza no interesse do grupo como um todo.
O jesuíta Charlevoix fez a seguinte observação sobre os nativo-americanos do então chamado “Novo Mundo”: “os sentimentos de irmandade dos Pele-vermelhas são sem dúvida imputáveis, em parte, ao fato de que as palavras meu e teu… são ainda desconhecidas dos (nativos). A proteção eles estendem aos órfãos, viúvas e enfermos, a hospitalidade que eles exercem de forma tão admirável são, aos seus olhos, nada mais que uma consequência da convicção que eles mantém de que todas as coisas devem ser comuns a todos.”
A “natureza humana” não era diferente lá atrás – a organização da sociedade era. Esse simples fato – além da existência continuada hoje de sociedades igualitárias como o povo !Kung, na Namíbia e Botswana – desmente a alegação de que uma sociedade sem estado é impossível.
Os anarquistas também estão certos quando argumentam que todos os estados são órgãos de dominação de classe.  O ascenso da democracia parlamentar não muda isso, porque o poder real hoje reside em instituições que estão livres da influência do voto. As pessoais não elegem as lideranças militares, os chefes de polícia, os burocratas dos altos departamentos do governo, os juízes, os líderes do FMI e da OMC. Os grandes negócios tomam as decisões.
Como mencionamos na introdução, marxistas e anarquistas concordam no objetivo de uma sociedade sem estado. Nossas diferenças se concentram em outra questão: como o estado existente pode ser eliminado?
Alguns anarquistas pensam que é possível ignorar ou rejeitar o estado por meio da construção de embriões de uma nova sociedade hoje, se recusando a comprar das corporações, vivendo em cooperativas, e fazendo outras mudanças similares no estilo de vida. Mas essa teoria ignora o fato de que apenas uma pequena minoria de pessoas na sociedade são capazes (ou desejam) abandonar a sociedade convencional
Trabalhadores, principalmente famílias trabalhadoras, estão ligados materialmente ao sistema da escravidão assalariada  pela sua necessidade de sobreviver através da venda de sua força de trabalho. Em qualquer caso, o estilo de vida em cooperativas pode ser atraente para alguns jovens (geralmente, brancos de classe média), mas faz pouco sentido para quem luta todo dia para alimentar sua família e encarar as contas.
A experiência mostra que é impossível construir ilhas duradouras de uma nova sociedade no mar do capitalismo. Todas as cooperativas e experimentações similares são sujeitas à pressão da sociedade “externa” e, cedo ou tarde, desintegram-se sob seu peso. O estado capitalista não pode ser simplesmente ignorado, ele precisa ser desmantelado e desarmado pelo povo

O estado e revolução
Anarquistas mais sérios concordam com os marxistas que o estado existente só pode ser superado pela revolução – em outras palavras, por um levante popular que quebre o exército, a polícia, e outras instituições do estado capitalista.
Mas qualquer insurreição que tenha sucesso em esmagar o aparelho do velho estado – como na Rússia (Fevereiro de 1917), Espanha (Julho de 1936), Bolívia (Abril de 1952), Nicarágua (Julho 1979) – encara imediatamente uma questão: o que vai substituir o velho estado? Anarquistas argumentam que comunidades autogovernadas sem qualquer autoridade central deveriam ser instaladas imediatamente após a superação do antigo poder.
Esta perspectiva parece boa no papel mas é utopia por uma razão básica – não leva em conta a inevitável resistência da antiga classe dominante
A luta de classes não termina com o triunfo da insurreição. A história de todas as revoluções passadas (desde a Revolução Francesa em 1789 até  a Revolução Nicaraguense em 1979) mostra que não apenas a classe dominante não vai parar por nada para se manter no poder, como vai fazer de tudo para retomar seu poder uma vez que o perder. A classe dominante derrubada também vai contar com a ajuda de quaisquer forças e governos reacionários que restem no mundo, visto que uma revolução mundial simultânea é improvável.
Para resistir e derrotar a inevitável resistência armada e a sabotagem econômica da reação capitalista, os trabalhadores vão precisar organizar um poder alternativo temporário, com um sistema democrático para tomar e implementar decisões, e com uma milícia dos trabalhadores coordenada e tribunais revolucionários. Este poder alternativo – independente de como ele decide se chamar – é em essência um estado, isso é, um instrumento para defender os interesses de uma classe contra outra.
Lênin, em O Estado e Revolução, observa que “o proletariado precisa do estado apenas temporariamente. Nós não discordamos em absoluto com o os anarquistas na questão da abolição do estado como objetivo. Nós mantemos que, para alcançar este objetivo, nós precisamos temporariamente fazer uso dos instrumentos, recursos, métodos do poder estatal contra os exploradores.”
Aqui vai um exemplo hipotético: imagine que nos Estados Unidos, após uma insurreição nacional vitoriosa, os capitalistas e seus lacaios se reagruparam na Flórida, Montana e no Maine (estados norteamericanos – NdT) e iniciaram uma ofensiva militar para retomar o resto do país. Para se defender, a revolução teria que decidir quais forças enviar a cada local, e como armar, transportar e alimentar as tropas revolucionárias. Essa coordenação só poderia ser empreendida no quadro de uma estrutura nacional de decisão – um estado operário. O fracasso em coordenar a defesa da revolução – em nome da rejeição abstrata à “autoridade” – seria uma receita garantida para o fracasso.
No despertar da revolução, um estado operário também será necessário por um período de transição para ajudar a estabelecer e coordenar o novo sistema econômico. O capitalismo criou um divisão nacional e internacional do trabalho: qual cidade ou região hoje tem acesso a todos os recursos necessários para sua sobrevivência? Uma vez que os trabalhadores dominarem a indústria e a distribuição, uma estrutura será necessária para, democraticamente, decidir quanta comida, roupas, etc., devem ser produzidas e como distribuir esses bens pelo país. Se cada fábrica e ou fazenda produzisse o que quer que desejasse sem coordenação, a economia iria inevitavelmente regredir às velhas normas capitalistas de competição caótica
Um motivo final pelo qual o estado operário seria necessário por um período e que atualmente existem milhões de pessoas idosas e doentes, entre outras, que dependem completamente da ajuda financeira do estado (Medicare, Social Security, etc. – programas de assistência social e médica nos EUA, NdT) para sobreviver. Alguma forma de autoridade será necessária, por um período de transição, para reunir os impostos necessários para fornecer esses e outros serviços públicos cruciais.

O teste da Revolução Espanhola
As ideias e teorias de todos os ativistas devem, finalmente, ser testadas pela experiência e pela prática. Então, vamos analisar a Revolução Espanhola de 1936-37, durante a qual os anarquistas – organizados na poderosa CNT, federal anarco-sindicalista, que tinha mais de 1.5 milhões de membros – eram a força dirigente na classe trabalhadora
No dia 18 de julho de 1936, os trabalhadores e camponeses espanhóis se levantaram em armas, em oposição ao golpe de estado fascista do General Franco contra o recém-eleito governo de Frente Popular (uma coalizão capitalista dos “republicanos” capitalistas e dos Partidos Comunista e Socialista).
Durante o levante, o velho maquinário capitalista entrou em colapso, com a maioria dos oficiais do exército se juntando aos fascistas e os soldados de baixa patente se somando à revolução. O poder passou às mãos dos sindicatos anarquistas e milícias dos trabalhadores em Madrid e na Catalunha – embora a Frente Popular ainda governasse formalmente a Espanha Republicana, pelo menos no papel.
Imediatamente após o levante, o líder regional do governo da Frente Popular, Luis Companys, disse categoricamente aos líderes da CNT: “hoje vocês são os mestres da cidade da Catalunha… vocês conquistaram e tudo está sob seu poder; se vocês não me querem ou não precisam de mim como presidente da Catalunha, me digam agora.”
A escolha era clara. Ou os anarquistas iriam derrubar o velho governo capitalista e instalar um governo operário (abandonando assim um princípio anarquista central) ou a Frente Popular irá continuar seu comando e, passo a passo, estrangular tanto a revolução quanto o combate contra o Facismo.
Em 23 de julho, a direção da CNT se reuniu para discutir a questão –  e decidiu por esmagadora maioria devolver o poder ao estado capitalista! Federica Montseny argumentou que “sua consciência como anarquista não a permitiria aceitar… a instalação de uma ditadura anarquista, pois era uma ditadura (e por isso) não poderia ser nunca anarquista.”
Olhando para trás, para a decisão, o líder anarquista Diego Abad de Santillán mais tarde apontou: “nós poderíamos ter… declarado-o (governo capitalista) nulo e inválido, e imposto o verdadeiro poder do povo no seu lugar, mas nós não acreditávamos em ditadura quando era exercida contra a gente, e não queríamos isso quando nós poderíamos exercê-la, só que às custas de outros”
Em resposta a essa traição histórica, o revolucionário russo Leon Trotsky concluiu:
“Essa auto-justificação de que ‘nós não confiscamos o poder não porque não éramos capazes, mas porque não queríamos porque éramos contra todas as formas de ditadura’ e similares, contém uma condenação irrevogável do anarquismo como uma doutrina totalmente anti-revolucionária. Renunciar à conquista do poder é voluntariamente deixar o poder com quem o exerce, os exploradores. A essência de toda revolução consistiu e consiste em por uma nova classe no poder, possibilitando assim que coloque em prática seu próprio programa. É impossível dirigir as massas à insurreição sem preparar para a conquista do poder”
Ainda pior, em setembro de 1936, os líderes anarquistas, completamente desorientados, levaram sua capitulação à sua conclusão lógica entrando na prática no estado capitalista, com quatro dirigentes da CNT assumindo cargos no governo da Frente Popular!
A experiência na Espanha mostrou o anarquismo como uma teoria revolucionária que não funcionou em situações revolucionárias – e destruiu a popularidade do pensamento anarquista por muitas décadas. Trotsky concluiu que o anarquismo é como uma capa de chuva cheia de buracos: só funciona quando não é necessária.
O estado operário: democracia real
Mas é possível perguntar: como seria um estado operário?
Mesmo no período inicial antes do triunfo definitivo da revolução mundial, o estado operário será completamente diferente dos estados anteriores. Ele será um estado dirigido diretamente pela vasta maioria, no interesse da vasta maioria. Direitos democráticos, como liberdade de expressão, liberdade de impressa, e liberdade de associação serão os pilares do novo estado
Conselhos operários compostos pela base, multi-partidários e democráticos decidirão todas as principais questões econômicas, culturais e sociais. Os conselhos em cada local de trabalho, escola e bairro vão eleger representantes para um conselho local; este conselhos locais vão delegar a alguns de seus membros para participar de uma estrutura regional e federal, com todo poder fluindo da base ao topo.

A expansão da democracia direta depende primeiramente da redução da jornada de trabalho, que será possível quando a produção internacional for organizada de forma planejada e destinada para a satisfação das necessidades humanas. Democracia real é impossível quando a maioria das pessoas é obrigada a trabalhar 50 horas por semana ou mais para sobreviver.
V.I. Lênin levou à frente  quatro pontos chave para garantir o funcionamento democrático do estado operário:
1) Todas as posições no governo devem ser eleitas livremente e sujeitas a ser revogados em qualquer momento.
2) Nenhum oficial pode receber um salário mais alto do que um trabalhador qualificado.
3) Não haverá exército permanente.
4) Gradualmente, as tarefas da administração do estado operário serão mais e mais rodadas. Como Lenin disse, “quando todo mundo é um burocrata, ninguém é um burocrata.”
“Nós devemos reduzir o papel dos oficiais do estado”, escreveu Lenin, “para o de simplesmente carregar as instruções (do povo) como responsáveis, revogáveis, modestamente pagos ‘encarregados e contadores’ (claro, com a ajuda de todos os tipos e graus de técnicos)”.

Diferenças entre Russia e EUA
Anarquistas e outros argumentam que a perspectiva marxista do estado operário é utópica e foi refutada pela experiência da revolução Russa. Mas se você compreende as raízes socioeconômicas do estalinismo, é possível ver porque o que ocorreu na Russia não ocorreria nos Estados Unidos, o mais rico, mais avançado tecnologicamente país do mundo.
Socialimo não pode ser construído dentro dos limites de um único país – especialmente não um país pobre e rural como a Russia (ou Cuba, ou China, etc.). É por isso que Lenin e Trotsky, e o seu Partido Bolchevique, viram a Russia como “o posto avançado da revolução mundial” e buscaram espalhar a revolução internacionalmente.
Uma onda revolucionária massiva varreu a Europa e o mundo depois de 1917, mas as revoluções operárias na Hungria (1918), Itália (1919-20) e, mais importante, na Alemanha (1918-23) foram esmagadas e afogadas em sangue, devido à ausência de partidos capazes de liderar a luta até a vitória.
Durante esse período, os poderes imperialistas fizeram de tudo que podiam para esmagar os trabalhadores russos: 14 países invadiram a Russia, financiaram reacionários militares (os “Brancos”) no que virou uma prolongada guerra civil (1918-22), e barraram todos os negócios com o governo russo.
O governo operário sobreviveu a essa investida mas se viu responsável por um país em ruínas. A camada mais resoluta de trabalhadores e camponeses havia sido morta na guerra civil, a maioria dos trabalhadores havia fugido para o interior a procura de trabalho, e a fome e doença eram ferozes – ao ponto que o canibalismo se espalhou pelo interior.
A escassez tremenda de itens essenciais como comida e roupas levou funcionários do governo a começar a sonegar  bens para si mesmos e suas famílias. Para proteger sua posição privilegiada, essa burocracia emergente, liderada por Joseph Stalin, tinha que eliminar todos os organismos de democracia no partido e no governo. V.I. Lenin, Leon Trotsky, e seus co-pensadores empreenderam uma luta heroica contra o stalinismo, mas apenas a expansão das forças produtivas na Rússia através da disseminação da revolução para os países capitalistas economicamente avançados poderia ter revertido essa tendência de burocratização.
Mas as coisas serão diferentes nos Estados Unidos. Como o conhecido socialista americano James P. Cannon explicou:
“Enquanto a Rússa era pobre e atrasada industrialmente, os Estados Unidos é rico e altamente desenvolvido. O capitalismo fez seu trabalho aqui, de forma que quando os trabalhadores chegarem ao poder, virarão herdeiros não de um país arruinado, atrasado, faminto, mas do país mais rico e com as capacidades produtivas mais altamente desenvolvidas no mundo todo.
Quando houver o bastante para todos, não haverá base para uma burocracia privilegiada e o perigo, portanto, é largamente eliminado. Tal será a situação na America rica e desenvolvida sob o domínio dos trabalhadores. Haverá democracia, florescendo como nunca antes na história do mundo, democracia em todas as esferas da vida comunal, de A a Z.”

A ascensão e queda do Estado
Anarquistas falham em entender as raízes econômicas da ascensão do estado e as precondições econômicas necessárias para se livrar dele.
O fim da era do comunismo primitivo e a ascensão das classes sociais ocorreram na época que as pessoas deixaram de viver exclusivamente da caça e da coleta. Quando a humanidade começou a planejar a produção agrícola, domesticar animais, semear sementes, etc., a sociedade foi pela primeira vez capaz de produzir um pequeno excedente de produtos, possibilitando uma minoria da população a sobreviver pelos produtos extras feitos pelo trabalho de outros. A pequena minoria que se apropriou dessa riqueza criou um instrumento – o estado –  para defender seus privilégios contra a maioria.
Enquanto a sociedade for dividida em classes, um estado vai existir para regular a distribuição do excedente (limitado) existente. Mas o capitalismo desenvolveu tanto as forças produtivas e a tecnologia que agora existe o potencial para prover as necessidades de todos os membros da sociedade, não apenas de uma minoria privilegia.
É por isso que a principal tarefa do estado operário (após a derrota militar da contrarrevolução em escala mundial) é acabar com as classes sociais e o próprio estado, organizando a economia para produzir uma super-abundancia de produtos
Até mesmo instituições capitalistas como as Nações Unidas admitem, hoje, que os recursos para prover a maioria das necessidade básicas da humanidade já existem. Mas mesmo a distribuição mais justa dos recursos atuais vai ficar pálida em comparação com as mudanças trazidas pelo fato de ter a produção sendo desenvolvida para as necessidade humanas e liberar o tremendo potencial da ciência e tecnologia para criar bens e serviços para todos.
Enquanto a escassez econômica diminui e a ameaça da restauração do capitalismo desaparece ao redor do mundo, o próprio estado operário deixaria de ter qualquer função para exercer. Nas palavras de Frederich Engels, o governo sobre o povo seria substituído pela administração das coisas (bens, serviços, etc.). Liberta da humilhante luta pela sobrevivência diária, a criatividade e a cultura humana iria florescer. Um brilhante novo capítulo da história humana seria aberto.

Oposição à liderança
O segundo ponto central de unidade entre os anarquistas é sua oposição aos partidos políticos, particularmente um partido revolucionário socialista. Essa perspectiva é integralmente ligada à sua oposição à “liderança”, que eles igualam à “hierarquia”.
De novo, é fácil entender o apelo desse ponto de vista. Nosso líderes políticos oficiais são mentirosos de marca maior pagos por seus apoiadores corporativos. Liderança é associada à arrogância, oportunismo e conservadorismo.
Além disso, nos EUA e internacionalmente, os atuais líderes vendidos da classe trabalhadora e oprimida são os principais obstáculos na luta por justiça social – e a responsabilidade pelo insucesso de tantos movimentos de massa e revoluções durante o último século repouso nos ombros dos aparelhos vendidos no movimento dos trabalhadores (em particular a liderança socialista e comunista) que fizeram todo o possível para escorar e resgatar o sistema capitalista moribundo.
O problema com a perspectiva anarquista é que não é realmente possível abolir a liderança em nossos movimentos. A liderança existe (e continuará a existir) em todas as lutas sociais e organizações – incluindo as mais inspiradas pelo anarquismo – porque algumas pessoas sempre tomam inciativa.
Liderança não necessariamente significa uma minoria elitista dando ordens de cima. Liderança é uma  relação. Quando você distribui um panfleto ou tenta convencer um amigo a participar de um protesto, você está fornecendo liderança. Mesmo uma greve espontânea ou protesto espontâneo tem líderes – alguém tem de ser a primeira pessoa a sair do trabalho ou fazer um discurso improvisado.

Aliás, o movimento anarquista sempre teve líderes. Desde Proudhon, Bakunin, Makhno, Goldman, e a CNT-FAI (Confederação Nacional do Trabalho – Federação Anarquista Ibérica – NdT) aos nosso ativistas anarquista contemporâneos, indivíduos e grupos específicos fazem panfletos, escrevem artigos, levantam reivindicações, chamam manifestações – em outras palavras, fornecem liderança.
A questão real é: qual tipo de liderança é necessária? De colaboração de classe ou de luta de classe? Liderança burocrática e autoritária ou liderança controlada por e diretamente responsável pelas fileiras?
Este é o ponto: as lideranças atuais reacionárias que presidem sobre o movimento dos trabalhadores não podem ser chutadas com uma “rejeição a liderança” abstrata, mas apenas criando uma liderança alternativa – não por alguns indivíduos “iluminados”, mas por centenas de milhares de ativistas revolucionários em todo o mundo dedicados à luta pela libertação da humanidade e organizados em torno de um programa político científico, o programa marxista da Quarta Internacional.
Apenas por meio do processo de empoderamento de uma revolução operária vitoriosa – e a subsequente florescência cultural e democrática produzida pela redução da jornada de trabalho e um sistema educacional vastamente aperfeiçoado – todas as pessoas serão capazes de preencher seu potencial e virar líderes em qualquer esfera de atividade que escolham.

Porque é necessário um Partido Socialista Revolucionário
Anarquistas argumentam que todos os partidos políticos – particularmente partidos socialistas revolucionários – são inerentemente “autoritários” e “hierárquicos”. Essas organizações, eles dizem, reproduzem as hierarquias da sociedade de classe e portanto são incapazes de levar a uma sociedade livre
Essa perspectiva parece plausível para muitos militantes por causa das suas experiências negativas com as chamadas organizações leninistas dos EUA, como a Liga Espartaquista ou o RCP – sem mencionar os horrores do Stalinismo. Mas esses grupos têm muito pouco em comum com o Socialist Organizer e a Quarta Internacional.
Vamos rapidamente clarificar quai a natureza real do processo marxista por um partido socialista revolucionário e, no processo, responder às objeções variadas dos anarquistas
A necessidade de um partido socialista revolucionário deriva do desenvolvimento desigual da consciência de classe entre os trabalhadores. Seções diferentes dos oprimidos vão radicalizar (isto é, se libertar das ilusões capitalistas) em diferente momentos porque a classe trabalhadora não é homogênea – existem diferenças de nacionalidade, gênero, orientação sexual, ocupação, etc
Portanto, trabalhadores e jovens que encontram as ideias revolucionárias mais cedo que seus pares precisam se  juntar em uma organização revolucionária para combater mais efetivamente nas lutas cotidianas pelo interesse dos trabalhadores e oprimidos como um todo, e ganhar mais pessoas para uma perspectiva política revolucionária científica.
É simples assim: algumas pessoas radicalizam antes que outros – e esses revolucionários (a vanguarda) precisam trabalhar juntos, sobre a base de um programa político efetivo, para ajudar o resto dos oprimidos a alcançar níveis mais altos de pensamento e ação política.
(É importante notar que enquanto organizações anarquistas não usam as palavras “partido” ou “vanguarda”, eles também tentam ganhar pessoas para suas ideias políticas – e, neste sentido, eles são tão inerentemente “vanguardistas” quanto as organizações marxista.)
Na realidade, não há nada “elitista” ou “substitucionista” em um partido socialista revolucionário. Uma organização socialista multinacional construída esmagadoramente por trabalhadores é da classe trabalhadora, não “de fora” da classe. Foi Marx quem disse “a emancipação da classe trabalhadora será obra dos próprios trabalhadores”

O papel de um partido revolucionário
Um partido socialista revolucionário não pode (e não deveria tentar) substituir um movimento de massa vindo da base da classe trabalhadora. O trágico exemplo de Che Guevara e as guerrilhas na América Latina mostra que uma revolução não pode ser feita por uma pequena minoria de radicais.
A espontaneidade é uma expressão essencial e positiva da resistência dos oprimidos. Mas, por causa da direção oportunista no nosso movimento e do prevalecimento das ideias capitalistas entre os trabalhadores, espontaneidade não é suficiente.
Enquanto uma organização revolucionária é importante em todos os estágios da luta de classes, seu papel fica mais decisivo durante crises revolucionárias. Os trabalhadores irrompem no cenário político com um sentimento definitivo de que “as coisas têm que mudar”, mas sem uma perspectiva clara de como essa mudança pode ser alcançada. Isso coloca um problema óbvio porque situações revolucionárias não duram muito – não mais que alguns dias, semanas ou meses no máximo. Há muito pouco tempo para fazer experiências ou aprender por tentativa e erro. Se os trabalhadores falham em atacar quando o ferro está quente, a desmoralização vai se infiltrar e a contrarrevolução vai tomar a iniciativa.
É por isso que um partido revolucionário – que aja como uma memória coletiva dos trabalhadores, passando a frente as lições aprendidas em lutas do passado – é necessário. Tentar lutar pela revolução sem o benefício dessas lições é como caminhar à noite sem um mapa ou lanterna e esperar que você eventualmente chegue ao seu destino.
Do mesmo jeito que o vapor precisa de um pistão para ser canalizado de forma efetiva, as insurreições massivas dos oprimidos só podem resultar em vitória quando existe um partido revolucionário que possa efetivamente prover um plano em direção à tomada do poder e possa ajudar o povo a superar todos os obstáculos no caminho.
Organizações anarquistas: consenso e ausência de
estrutura (horizontalidade)
Anarquistas que romperam com o individualismo puro promovem várias formas de organização. Vamos olhar criticamente a uma organização popular inspirada pelo anarquismo: o coletivo local ou “grupo de afinidade” baseado no consenso.
Para começar, ser uma organização puramente local – oposta a uma nacional – dificilmente é algo para se orgulhar. Os capitalistas se organizam nacionalmente. Eles tem o aparato repressivo do estado centralizado para lutar por seus interesses e a mídia nacional para espalhar suas ideias. Quando existe uma greve importante, por exemplo, os capitalistas e seu governo jogam o peso das estruturas e recursos nacional em apoio aos patrões. Você acha que podemos derrotar essa máquina massiva se formos menos organizados que isso?
Nós precisamos de organizações de massa nacionais para o nosso lado. Para vencer, nossa luta requer sindicatos de massa, um partido dos trabalhadores de massa, organizações de massa das nacionalidades oprimidas lutando por autodeterminação, e, combatendo dentro dessas organizações mais amplas, uma organização socialista revolucionária. Grupos radicais locais podem ser suficientes para tratar de questões específicas e para criticar o capitalismo, mas são insuficientes para resistir efetivamente ao capitalismo, ainda mais superá-lo.
Anarquistas contrapõem que essas grandes organizações inevitavelmente viram burocráticas e cooptadas. É verdade que é sério o perigo da cooptação: os capitalistas são uma pequena minoria da população e podem manter seu domínio apenas se colocam nossas poderosas organizações de massa em cheque, pela correia de transmissão de direções compradas.
Mas essa pressão corporativa constante pela cooptação na verdade testemunha o tremendo poder potencial das nossas organizações operárias de massa sob uma direção militante. (Compreensivelmente, os capitalistas vêem muito pouca necessidade de cooptar pequenos grupos de anarquistas.)
Da mesma forma, o perigo da direção irresponsável está presente em qualquer organização, tanto faz que ela tenha 10 membros ou 10 mil. Mas argumentar que qualquer organização de massa vai inevitavelmente ser burocratizada (“hierárquica”) é dizer que os trabalhadores são incapazes de controlar democraticamente suas organizações – uma ideia muito elitista, se você pensar a respeito.
Além disso os métodos  do consenso e da ausência de estrutura (horizontalidade) típicos em muitos círculos anarquistas,são qualquer coisa mesmo democráticos.
O processo do “consenso” é antidemocrático na sua essência. Ele permite que uma minoria intransigente (ou mesmo um único indivíduo) mantenha a maioria refém. Democracia organizacional real requer uma discussão livre e aberta, com o direito garantido de concordar ou discordar e não ser pressionado a aceitar a uniformidade, seguida pelo voto e decisão pela maioria. Mais, o método do consenso é muitas vezes elitista porque normalmente exclui trabalhadores, que não têm tempo para reuniões que duram quatro ou cinco horas… ou mais.
Sem uma estrutura organizacional transparente, você não poder ter responsabilidades, eleições regulares, revogação de mandatos, ou uma visão global coletiva sobre quais decisões foram implementadas. O que tende a surgir em grupos inspirados pelo anarquismo é uma “tirania da ausência de estrutura  (horizontalidade)” na qual aqueles  com os melhores grupinhos informais ou grupos de amigos são capazes de dominar o grupo.
Um exemplo clássico deste tipo de direção que não responde por seus atos foi a aliança secreta que o líder anarquista Mikhail Bakunin formou dentro da I Internacional no início dos anos 1870. Bakunin defendia que a ação espontânea das massas devia ser suplementada por um pequeno grupo de conspiradores revolucionários, como “pilotos invisíveis no meio da tempestade popular”. Ele escreveu: “nós devemos dirigir [a revolução] não apenas por qualquer força aberta mas pela ditadura coletiva de todos os aliados  – uma ditadura sem insígnia, títulos ou direitos oficiais, e mais forte por não ter nenhuma parafernárlia de poder”.

Anarco-sindicalismo e IWW
De todas as tradições políticas anarquistas, o anarco-sindicalimo é uma das mais próximas politicamente do marxismo.
Ambos vemos a classe trabalhadora organizada como a força-motriz central para a mudança revolucionária. Mas o anarco-sindicalismo pensa que os sindicatos são a única forma de organização necessária para a transformação revolucionária da sociedade. Marxistas pensam que o sindicato é crucial – mas não suficientes por si só para superar o capitalismo
Sindicatos são instrumentos de massa para todos os trabalhadores num dado local de trabalho ou indústria – trabalhadores de uma ampla gama de base política, de revolucionários a reacionários – para lutar por seus interesses específicos e direitos contra os patrões. Para efetivamente cumprir esse papel, o sindicato deve objetivar ser o mais amplo possível.
Essa amplitude resulta numa constante batalha de ideias dentro dos sindicatos. Para combater efetivamente os falsos dirigentes e a influência da burguesia no movimento dos trabalhadores, os revolucionários precisam intervir de uma forma organizada – isto é, através de uma organização socialista revolucionária
A experiência do Trabalhadores Indutriais do Mundo (IWW, na sigla em inglês), a influente organização sindical norteamericana no início do século 20, é muito esclarecedora. James P. Cannon – um dirigente do IWW que acabou sendo ganho para o marxismo – explica:
“Uma dos mais importantes contradições do IWW foi o papel duplo que ela assumiu para si. Não foi um motivo menor para o fracasso em que o IWW acabou chegando o fato de que tentou ser tanto um sindicato de todos os trabalhadores quanto uma sociedade de propaganda de revolucionários selecionados – em essência, um partido revolucionário. Essa dualidade prejudicou sua eficiência em ambos os campos.
O IWW se anunciou como um sindicato que incluiria todos; e qualquer trabalhador pronto para se organizar na base sindical cotidiana foi convidado à aderir, independente de suas visões e opiniões sobre qualquer outra questão.
O IWW em todos os momentos, mesmo durante greves envolvendo massas de trabalhadores ordinariamente conservadores religiosos, agiu como uma organização de revolucionários. Os militantes que realmente se organizavam ao longo de todo o ano no IWW foram apelidos de “wobblies” – ninguém sabe ao certo quando ou porque – e o critério para ser chamado assim é que defendiam o princípio da luta de classe e seu objetivo revolucionário, e estavam prontos para comprometer toda sua vida nisso.
Como um sindicato, a organização liderou muitas greves que inchavam a adesão momentaneamente. Mas depois que as greves acabavam, com vitória ou derrota, a organização estável do sindicato não era mantida. Após cada greve, a adesão voltava novamente aos quadros comprometidos por principio.
(Hoje) a massa dos trabalhadores industriais, pelo fato da sua existência, instintivamente se esforça em direção ao socialismo. Com uma direção de viés capitalista, são uma casa dividida contra si mesma, metade escrava e metade livre. A construção de uma organização à parte, partidária, da vanguarda socialista é a chave para a solução da contradição atual do movimento dos trabalhadores.
Os burocratas que estão no comando, que pregam e praticam a colaboração de classes, constituem de fato um partido pró-capitalista nos sindicatos. O partido da vanguarda socialista representa a consciência de classe. Essa organização significa não um racha do movimento de classe dos trabalhadores, mas uma divisão do trabalho dentro desse movimento, para facilitar e efetuar sua unificação numa base revolucionária.”

Prática Anarquista: “ação direta”
Outro ponto central de discórdia entre anarquistas e marxistas têm a ver com nossas perspectivas de ação direta.
Claro, a urgência de agir diretamente contra o status quo é completamente justificada. Mas a maioria das ações diretas dos anarquistas – como confrontos com a política, bloquear o trânsito, e “destruição de propriedade” (exemplo, quebrar a janela de um McDonalds) – não pode realmente “bloquear as engrenagens da máquina capitalista” (isto é, interromper a capacidade do sistema de funcionar).
Você pode cercar uma reunião do FMI e talvez até impedir que algumas delegações entrem – mas na próxima vez eles vão fazer uma teleconferência via satélite. Você pode bloquear o tráfico – e irritar algumas pessoas tentando chegar em casa do trabalho. Você pode quebrar a janela de uma Starbuck – e em alguns dias, a companhia vai ter arrumado, com quase nenhum arranhão no seu orçamento de bilhões de dólares.
As “ações diretas” anarquistas tendem a ser uma forma muito elitista de protesto, atraindo na maioria ativistas privilegiados, brancos, de classe média. Negros que encaram a brutalidade diária da polícia normalmente não estão ansiosos para dar aos policiais outra desculpa para bater neles. Trabalhadores não podem necessariamente se dar ao luxo de pagar as pesadas fianças por serem presos, ou perder um dia de trabalho para ir à justiça.
A orientação dos marxistas é centrada na mobilização dos trabalhadores – em particular seus setores mais oprimidos como negros, mulheres e jovens – porque trabalhadores têm um poder real: simplesmente não indo trabalhar, podemos fechar permanente qualquer negócio, cidade ou país. Greves, na nossa opinião, são ações diretas reais. Mas para chegar ao ponto em que os trabalhadores fazem greve, exércitos se amotinam, e outras formas de ações diretas da classe trabalhadora que estão na agenda imediata é primeiro preciso construir um movimento de massa.
É por isso que o Socialist Organizer muitas vezes promove protestos de massa pacíficos: eles são primeiros passos importantes para os trabalhadores se envolveram em causas de justiça social. E como mostraram o movimento contra a guerra do Vietnam e os recentes protestos pelos direitos dos imigrantes em 2006, estes protestos pode causar um grande impacto.
Nós também, às vezes, apoiamos a desobediência civil em massa ou a auto-defesa contra a polítcia, fura greves  ou racistas*. Mas nós o fazemos taticamente, caso a caso, como parte de uma estratégia de construir um movimento e mobilizar a maioria ao redor dos seus próprios interesses – não para permitir que pequenos grupos de jovens possam se sentir radicais porque quebraram uma janela.

Prática anarquista: eleições
Anarquistas e marxistas concordam que o estado atual é um instrumento do grande negócio e que o socialismo não pode ser introduzido pacificamente por meio de urnas capitalistas, como o trágico exemplo de Salvador Allende no Chile mostrou.
Mas aos contrário do que alegam os anarquistas, não é contra os princípios revolucionários apoiar (ou concorrer como) candidatos independentes nas eleições. Eleições são uma das poucas vezes que muitos trabalhadores se envolvem em discussão política. Nós precisamos de candidatos da classe trabalhadora independentes para falar sobre nossas questões, levantar nossas demandas, e mudar os termos do debate. Nós vemos as eleições principalmente como uma oportunidade de organizar e mobilizar.
Os “boicotes” anarquistas das eleições soam extremamente radicais, mas são essencialmente uma adaptação passiva ao sistema de dois partidos (Democratas e Republicanos, NdT): será impossível quebrar nossas organizações de massa e movimentos da sua subordinação aos Democratas até que seja criada uma alternativa política crível.
A maioria do povo trabalhador vai perder suas ilusões no estado capitalista não através da propaganda de pequenos grupos radicais, mas por meio de sua própria experiência na luta de classes e com a experiência de construir sua própria voz política. É por isso que o Socialist Organizer chama à formação de um Partido dos Trabalhadores, de massa, baseado nos sindicatos e todas as organizações dos oprimidos.

Conclusão
Uma boa crítica ao capitalismo é inútil sem uma estratégia efetiva para se livrar dele. Apesar de seus sinceros esforços e objetivos, anarquistas são similares a médicos que diagnosticam corretamente a doença de um paciente –  mas prescrevem a medicação errada.
Olhando para trás sobre seus anos inicias de atividade política, James P. Cannon lembrou elonquentemente:
“Nos meus dias de juventude, eu era muito amigável com os anarqusitas e era um anarquista eu mesmo, por natureza. Eu amava a palavra “liberdade”, a qual era a maior palavra no vocabulário anarquista. Os impulsos dos anarquistas originais eram maravilhosos, mas sua teoria era falha, e não poderia sobreviver ao teste da guerra e da revolução.
Meu impulso de ir até o fim com eles foi bloqueado pelo reconhecimento de que a reorganização da sociedade, que é o que pode tonar a liberdade real possível, não pode ser alcançada sem um partido revolucionário…a fusão dos instintos rebeldes dos indivíduos com o reconhecimento intelectual de que sua rebeldia pode ser efetiva apenas quando estão combinados e unidos em uma única força de ataque, que apenas uma organização disciplinada pode oferecer.”
Nós encorajamos todos os ativistas que querem efetivamente lutar por um mundo livre da opressão e exploração a se juntar ao Socialist Organizer. Nada menos que o destino da humanidade está em jogo.

Publicamos o texto  dos jovens da organizaçao marxista estadunidense “Socialist Organizer”, seção da IV Internacional, que compõe junto com a Juventude Revolução o comitê de redação do Boletim Internacional de Juventude, já na edição n° 10 e que se constituiu desde uma reunião de jovens realizada durante a Conferência Mundial Aberta contra a guerra  e a exploração em 2010 na Argélia.
O Texto, escrito em 2011, traz uma discussão importante sobre a politica desenvolvida pelos anarquistas, e uma comparação com a politica marxista desenvolvida por “Socialist Organizer”. Nesse momento em que temos visto no Brasil a apologia da “horizontalidae” e de outro modo da “ação direta”, identificadas com o anarquismo, atraindo muitos ativistas que buscam honestamente lutar pelo direito a um futuro a reflexão dos camaradas dos EUA nos parece findamental e será tema da atividade de formação da JR que ocorerá nos dias 21 e 22 de setembro  em Brasilia – DF

O anarquismo voltou a ganhar popularidade nos últimos anos. Um número substancial de jovens radicalizados se voltam, hoje, às políticas anarquistas na sua luta por um mundo sem patrões, guerra, racismo, sexismo, e todas as formas de opressão.
Há muitos ramos da teoria e prática anarquista (ou “libertária”). As formas mais comuns são o anarquismo individualista, com rejeições a qualquer forma de organização; anarquismo do estilo “Black-bloc”, que favorece a “ação direta” acima de tudo mais; o anarco-sindicalismo e comunismo libertário, com orientação para a classe operária; o “primitivismo” e anarquismo verde, que busca destruir (ou escapar) da civilização.
Apesar dessa heterogeneidade política, certos pontos políticos são defendidos por praticamente todos os tipos de anarquismo, nomeadamente:
1) Oposição a todos os governos e estados, inclusive um governo da classe trabalhadora;
2) Oposição a todos os partidos políticos.
Após os horrores do Stalinismo e o colapso da União Soviética, o anarquismo aparece para muitos como sendo a única perspectiva revolucionária de esquerda imaculada. Muitos anarquistas são lutadores por mudanças sociais, sinceros e apaixonados. Mas o anarquismo é uma perspectiva política capaz de levar derrubar o capitalismo? Nós pensamos que não.
Neste artigo, nós vamos fazer nossa crítica a partir do ponto de vista do marxismo revolucionário, como expresso hoje pelo Socialist Organizer e a Quarta Internacional, os quais se mantêm nas melhores tradicionais políticas de Marx, Lenin e Trotsky. Como nós demonstraremos, nossas políticas são radicalmente diferentes de todas as formas do Stalinismo burocrático , e o sectarismo de extrema esquerda que muitos anarquistas honestos identificam com o marxismo. Iremos explicar que o marxismo é a única perspectiva política capaz de ajudar efetivamente o povo trabalhador atingir à sociedade sem classes e sem estados que tanto os anarquistas como os socialistas têm como objetivo final.

O Estado
O termo anarquia vem da Grécia e quer dizer “sem um governante” ou “sem autoridade”. O coração do pensamento anarquista é a ideia de que o estado – isso é, órgão armado da ordem de uma determinada classe social para preservar um sistema específico de produção – é inerentemente um instrumento opressivo de subjugação de um grupo sobre outro e, portanto, o estado e todas as instituições hierárquicas, precisam ser abolidas imediatamente e substituídas pelo autogoverno  do povo: anarquia.
Muitas pessoas consideram essa perspectiva utópica. Sem uma autoridade, dizem, a sociedade humana iria se degenerar até o caos e a “lei da selva”. Por causa da “natureza humana”, sempre haverá alguns indivíduos que buscam e tomam o poder.
Mas nessa questão, são os anarquistas que estão certos. Antropologistas modernos mostraram que por milhares de anos – pela maior parte da história humana – não houve estado e nem classes sociais. As pessoas viviam comunalmente em pequenos grupos, dividindo o trabalho e a riqueza no interesse do grupo como um todo.
O jesuíta Charlevoix fez a seguinte observação sobre os nativo-americanos do então chamado “Novo Mundo”: “os sentimentos de irmandade dos Pele-vermelhas são sem dúvida imputáveis, em parte, ao fato de que as palavras meu e teu… são ainda desconhecidas dos (nativos). A proteção eles estendem aos órfãos, viúvas e enfermos, a hospitalidade que eles exercem de forma tão admirável são, aos seus olhos, nada mais que uma consequência da convicção que eles mantém de que todas as coisas devem ser comuns a todos.”
A “natureza humana” não era diferente lá atrás – a organização da sociedade era. Esse simples fato – além da existência continuada hoje de sociedades igualitárias como o povo !Kung, na Namíbia e Botswana – desmente a alegação de que uma sociedade sem estado é impossível.
Os anarquistas também estão certos quando argumentam que todos os estados são órgãos de dominação de classe.  O ascenso da democracia parlamentar não muda isso, porque o poder real hoje reside em instituições que estão livres da influência do voto. As pessoais não elegem as lideranças militares, os chefes de polícia, os burocratas dos altos departamentos do governo, os juízes, os líderes do FMI e da OMC. Os grandes negócios tomam as decisões.
Como mencionamos na introdução, marxistas e anarquistas concordam no objetivo de uma sociedade sem estado. Nossas diferenças se concentram em outra questão: como o estado existente pode ser eliminado?
Alguns anarquistas pensam que é possível ignorar ou rejeitar o estado por meio da construção de embriões de uma nova sociedade hoje, se recusando a comprar das corporações, vivendo em cooperativas, e fazendo outras mudanças similares no estilo de vida. Mas essa teoria ignora o fato de que apenas uma pequena minoria de pessoas na sociedade são capazes (ou desejam) abandonar a sociedade convencional
Trabalhadores, principalmente famílias trabalhadoras, estão ligados materialmente ao sistema da escravidão assalariada  pela sua necessidade de sobreviver através da venda de sua força de trabalho. Em qualquer caso, o estilo de vida em cooperativas pode ser atraente para alguns jovens (geralmente, brancos de classe média), mas faz pouco sentido para quem luta todo dia para alimentar sua família e encarar as contas.
A experiência mostra que é impossível construir ilhas duradouras de uma nova sociedade no mar do capitalismo. Todas as cooperativas e experimentações similares são sujeitas à pressão da sociedade “externa” e, cedo ou tarde, desintegram-se sob seu peso. O estado capitalista não pode ser simplesmente ignorado, ele precisa ser desmantelado e desarmado pelo povo

O estado e revolução
Anarquistas mais sérios concordam com os marxistas que o estado existente só pode ser superado pela revolução – em outras palavras, por um levante popular que quebre o exército, a polícia, e outras instituições do estado capitalista.
Mas qualquer insurreição que tenha sucesso em esmagar o aparelho do velho estado – como na Rússia (Fevereiro de 1917), Espanha (Julho de 1936), Bolívia (Abril de 1952), Nicarágua (Julho 1979) – encara imediatamente uma questão: o que vai substituir o velho estado? Anarquistas argumentam que comunidades autogovernadas sem qualquer autoridade central deveriam ser instaladas imediatamente após a superação do antigo poder.
Esta perspectiva parece boa no papel mas é utopia por uma razão básica – não leva em conta a inevitável resistência da antiga classe dominante
A luta de classes não termina com o triunfo da insurreição. A história de todas as revoluções passadas (desde a Revolução Francesa em 1789 até  a Revolução Nicaraguense em 1979) mostra que não apenas a classe dominante não vai parar por nada para se manter no poder, como vai fazer de tudo para retomar seu poder uma vez que o perder. A classe dominante derrubada também vai contar com a ajuda de quaisquer forças e governos reacionários que restem no mundo, visto que uma revolução mundial simultânea é improvável.
Para resistir e derrotar a inevitável resistência armada e a sabotagem econômica da reação capitalista, os trabalhadores vão precisar organizar um poder alternativo temporário, com um sistema democrático para tomar e implementar decisões, e com uma milícia dos trabalhadores coordenada e tribunais revolucionários. Este poder alternativo – independente de como ele decide se chamar – é em essência um estado, isso é, um instrumento para defender os interesses de uma classe contra outra.
Lênin, em O Estado e Revolução, observa que “o proletariado precisa do estado apenas temporariamente. Nós não discordamos em absoluto com o os anarquistas na questão da abolição do estado como objetivo. Nós mantemos que, para alcançar este objetivo, nós precisamos temporariamente fazer uso dos instrumentos, recursos, métodos do poder estatal contra os exploradores.”
Aqui vai um exemplo hipotético: imagine que nos Estados Unidos, após uma insurreição nacional vitoriosa, os capitalistas e seus lacaios se reagruparam na Flórida, Montana e no Maine (estados norteamericanos – NdT) e iniciaram uma ofensiva militar para retomar o resto do país. Para se defender, a revolução teria que decidir quais forças enviar a cada local, e como armar, transportar e alimentar as tropas revolucionárias. Essa coordenação só poderia ser empreendida no quadro de uma estrutura nacional de decisão – um estado operário. O fracasso em coordenar a defesa da revolução – em nome da rejeição abstrata à “autoridade” – seria uma receita garantida para o fracasso.
No despertar da revolução, um estado operário também será necessário por um período de transição para ajudar a estabelecer e coordenar o novo sistema econômico. O capitalismo criou um divisão nacional e internacional do trabalho: qual cidade ou região hoje tem acesso a todos os recursos necessários para sua sobrevivência? Uma vez que os trabalhadores dominarem a indústria e a distribuição, uma estrutura será necessária para, democraticamente, decidir quanta comida, roupas, etc., devem ser produzidas e como distribuir esses bens pelo país. Se cada fábrica e ou fazenda produzisse o que quer que desejasse sem coordenação, a economia iria inevitavelmente regredir às velhas normas capitalistas de competição caótica
Um motivo final pelo qual o estado operário seria necessário por um período e que atualmente existem milhões de pessoas idosas e doentes, entre outras, que dependem completamente da ajuda financeira do estado (Medicare, Social Security, etc. – programas de assistência social e médica nos EUA, NdT) para sobreviver. Alguma forma de autoridade será necessária, por um período de transição, para reunir os impostos necessários para fornecer esses e outros serviços públicos cruciais.

O teste da Revolução Espanhola
As ideias e teorias de todos os ativistas devem, finalmente, ser testadas pela experiência e pela prática. Então, vamos analisar a Revolução Espanhola de 1936-37, durante a qual os anarquistas – organizados na poderosa CNT, federal anarco-sindicalista, que tinha mais de 1.5 milhões de membros – eram a força dirigente na classe trabalhadora
No dia 18 de julho de 1936, os trabalhadores e camponeses espanhóis se levantaram em armas, em oposição ao golpe de estado fascista do General Franco contra o recém-eleito governo de Frente Popular (uma coalizão capitalista dos “republicanos” capitalistas e dos Partidos Comunista e Socialista).
Durante o levante, o velho maquinário capitalista entrou em colapso, com a maioria dos oficiais do exército se juntando aos fascistas e os soldados de baixa patente se somando à revolução. O poder passou às mãos dos sindicatos anarquistas e milícias dos trabalhadores em Madrid e na Catalunha – embora a Frente Popular ainda governasse formalmente a Espanha Republicana, pelo menos no papel.
Imediatamente após o levante, o líder regional do governo da Frente Popular, Luis Companys, disse categoricamente aos líderes da CNT: “hoje vocês são os mestres da cidade da Catalunha… vocês conquistaram e tudo está sob seu poder; se vocês não me querem ou não precisam de mim como presidente da Catalunha, me digam agora.”
A escolha era clara. Ou os anarquistas iriam derrubar o velho governo capitalista e instalar um governo operário (abandonando assim um princípio anarquista central) ou a Frente Popular irá continuar seu comando e, passo a passo, estrangular tanto a revolução quanto o combate contra o Facismo.
Em 23 de julho, a direção da CNT se reuniu para discutir a questão –  e decidiu por esmagadora maioria devolver o poder ao estado capitalista! Federica Montseny argumentou que “sua consciência como anarquista não a permitiria aceitar… a instalação de uma ditadura anarquista, pois era uma ditadura (e por isso) não poderia ser nunca anarquista.”
Olhando para trás, para a decisão, o líder anarquista Diego Abad de Santillán mais tarde apontou: “nós poderíamos ter… declarado-o (governo capitalista) nulo e inválido, e imposto o verdadeiro poder do povo no seu lugar, mas nós não acreditávamos em ditadura quando era exercida contra a gente, e não queríamos isso quando nós poderíamos exercê-la, só que às custas de outros”
Em resposta a essa traição histórica, o revolucionário russo Leon Trotsky concluiu:
“Essa auto-justificação de que ‘nós não confiscamos o poder não porque não éramos capazes, mas porque não queríamos porque éramos contra todas as formas de ditadura’ e similares, contém uma condenação irrevogável do anarquismo como uma doutrina totalmente anti-revolucionária. Renunciar à conquista do poder é voluntariamente deixar o poder com quem o exerce, os exploradores. A essência de toda revolução consistiu e consiste em por uma nova classe no poder, possibilitando assim que coloque em prática seu próprio programa. É impossível dirigir as massas à insurreição sem preparar para a conquista do poder”
Ainda pior, em setembro de 1936, os líderes anarquistas, completamente desorientados, levaram sua capitulação à sua conclusão lógica entrando na prática no estado capitalista, com quatro dirigentes da CNT assumindo cargos no governo da Frente Popular!
A experiência na Espanha mostrou o anarquismo como uma teoria revolucionária que não funcionou em situações revolucionárias – e destruiu a popularidade do pensamento anarquista por muitas décadas. Trotsky concluiu que o anarquismo é como uma capa de chuva cheia de buracos: só funciona quando não é necessária.
O estado operário: democracia real
Mas é possível perguntar: como seria um estado operário?
Mesmo no período inicial antes do triunfo definitivo da revolução mundial, o estado operário será completamente diferente dos estados anteriores. Ele será um estado dirigido diretamente pela vasta maioria, no interesse da vasta maioria. Direitos democráticos, como liberdade de expressão, liberdade de impressa, e liberdade de associação serão os pilares do novo estado
Conselhos operários compostos pela base, multi-partidários e democráticos decidirão todas as principais questões econômicas, culturais e sociais. Os conselhos em cada local de trabalho, escola e bairro vão eleger representantes para um conselho local; este conselhos locais vão delegar a alguns de seus membros para participar de uma estrutura regional e federal, com todo poder fluindo da base ao topo.

A expansão da democracia direta depende primeiramente da redução da jornada de trabalho, que será possível quando a produção internacional for organizada de forma planejada e destinada para a satisfação das necessidades humanas. Democracia real é impossível quando a maioria das pessoas é obrigada a trabalhar 50 horas por semana ou mais para sobreviver.
V.I. Lênin levou à frente  quatro pontos chave para garantir o funcionamento democrático do estado operário:
1) Todas as posições no governo devem ser eleitas livremente e sujeitas a ser revogados em qualquer momento.
2) Nenhum oficial pode receber um salário mais alto do que um trabalhador qualificado.
3) Não haverá exército permanente.
4) Gradualmente, as tarefas da administração do estado operário serão mais e mais rodadas. Como Lenin disse, “quando todo mundo é um burocrata, ninguém é um burocrata.”
“Nós devemos reduzir o papel dos oficiais do estado”, escreveu Lenin, “para o de simplesmente carregar as instruções (do povo) como responsáveis, revogáveis, modestamente pagos ‘encarregados e contadores’ (claro, com a ajuda de todos os tipos e graus de técnicos)”.

Diferenças entre Russia e EUA
Anarquistas e outros argumentam que a perspectiva marxista do estado operário é utópica e foi refutada pela experiência da revolução Russa. Mas se você compreende as raízes socioeconômicas do estalinismo, é possível ver porque o que ocorreu na Russia não ocorreria nos Estados Unidos, o mais rico, mais avançado tecnologicamente país do mundo.
Socialimo não pode ser construído dentro dos limites de um único país – especialmente não um país pobre e rural como a Russia (ou Cuba, ou China, etc.). É por isso que Lenin e Trotsky, e o seu Partido Bolchevique, viram a Russia como “o posto avançado da revolução mundial” e buscaram espalhar a revolução internacionalmente.
Uma onda revolucionária massiva varreu a Europa e o mundo depois de 1917, mas as revoluções operárias na Hungria (1918), Itália (1919-20) e, mais importante, na Alemanha (1918-23) foram esmagadas e afogadas em sangue, devido à ausência de partidos capazes de liderar a luta até a vitória.
Durante esse período, os poderes imperialistas fizeram de tudo que podiam para esmagar os trabalhadores russos: 14 países invadiram a Russia, financiaram reacionários militares (os “Brancos”) no que virou uma prolongada guerra civil (1918-22), e barraram todos os negócios com o governo russo.
O governo operário sobreviveu a essa investida mas se viu responsável por um país em ruínas. A camada mais resoluta de trabalhadores e camponeses havia sido morta na guerra civil, a maioria dos trabalhadores havia fugido para o interior a procura de trabalho, e a fome e doença eram ferozes – ao ponto que o canibalismo se espalhou pelo interior.
A escassez tremenda de itens essenciais como comida e roupas levou funcionários do governo a começar a sonegar  bens para si mesmos e suas famílias. Para proteger sua posição privilegiada, essa burocracia emergente, liderada por Joseph Stalin, tinha que eliminar todos os organismos de democracia no partido e no governo. V.I. Lenin, Leon Trotsky, e seus co-pensadores empreenderam uma luta heroica contra o stalinismo, mas apenas a expansão das forças produtivas na Rússia através da disseminação da revolução para os países capitalistas economicamente avançados poderia ter revertido essa tendência de burocratização.
Mas as coisas serão diferentes nos Estados Unidos. Como o conhecido socialista americano James P. Cannon explicou:
“Enquanto a Rússa era pobre e atrasada industrialmente, os Estados Unidos é rico e altamente desenvolvido. O capitalismo fez seu trabalho aqui, de forma que quando os trabalhadores chegarem ao poder, virarão herdeiros não de um país arruinado, atrasado, faminto, mas do país mais rico e com as capacidades produtivas mais altamente desenvolvidas no mundo todo.
Quando houver o bastante para todos, não haverá base para uma burocracia privilegiada e o perigo, portanto, é largamente eliminado. Tal será a situação na America rica e desenvolvida sob o domínio dos trabalhadores. Haverá democracia, florescendo como nunca antes na história do mundo, democracia em todas as esferas da vida comunal, de A a Z.”

A ascensão e queda do Estado
Anarquistas falham em entender as raízes econômicas da ascensão do estado e as precondições econômicas necessárias para se livrar dele.
O fim da era do comunismo primitivo e a ascensão das classes sociais ocorreram na época que as pessoas deixaram de viver exclusivamente da caça e da coleta. Quando a humanidade começou a planejar a produção agrícola, domesticar animais, semear sementes, etc., a sociedade foi pela primeira vez capaz de produzir um pequeno excedente de produtos, possibilitando uma minoria da população a sobreviver pelos produtos extras feitos pelo trabalho de outros. A pequena minoria que se apropriou dessa riqueza criou um instrumento – o estado –  para defender seus privilégios contra a maioria.
Enquanto a sociedade for dividida em classes, um estado vai existir para regular a distribuição do excedente (limitado) existente. Mas o capitalismo desenvolveu tanto as forças produtivas e a tecnologia que agora existe o potencial para prover as necessidades de todos os membros da sociedade, não apenas de uma minoria privilegia.
É por isso que a principal tarefa do estado operário (após a derrota militar da contrarrevolução em escala mundial) é acabar com as classes sociais e o próprio estado, organizando a economia para produzir uma super-abundancia de produtos
Até mesmo instituições capitalistas como as Nações Unidas admitem, hoje, que os recursos para prover a maioria das necessidade básicas da humanidade já existem. Mas mesmo a distribuição mais justa dos recursos atuais vai ficar pálida em comparação com as mudanças trazidas pelo fato de ter a produção sendo desenvolvida para as necessidade humanas e liberar o tremendo potencial da ciência e tecnologia para criar bens e serviços para todos.
Enquanto a escassez econômica diminui e a ameaça da restauração do capitalismo desaparece ao redor do mundo, o próprio estado operário deixaria de ter qualquer função para exercer. Nas palavras de Frederich Engels, o governo sobre o povo seria substituído pela administração das coisas (bens, serviços, etc.). Liberta da humilhante luta pela sobrevivência diária, a criatividade e a cultura humana iria florescer. Um brilhante novo capítulo da história humana seria aberto.

Oposição à liderança
O segundo ponto central de unidade entre os anarquistas é sua oposição aos partidos políticos, particularmente um partido revolucionário socialista. Essa perspectiva é integralmente ligada à sua oposição à “liderança”, que eles igualam à “hierarquia”.
De novo, é fácil entender o apelo desse ponto de vista. Nosso líderes políticos oficiais são mentirosos de marca maior pagos por seus apoiadores corporativos. Liderança é associada à arrogância, oportunismo e conservadorismo.
Além disso, nos EUA e internacionalmente, os atuais líderes vendidos da classe trabalhadora e oprimida são os principais obstáculos na luta por justiça social – e a responsabilidade pelo insucesso de tantos movimentos de massa e revoluções durante o último século repouso nos ombros dos aparelhos vendidos no movimento dos trabalhadores (em particular a liderança socialista e comunista) que fizeram todo o possível para escorar e resgatar o sistema capitalista moribundo.
O problema com a perspectiva anarquista é que não é realmente possível abolir a liderança em nossos movimentos. A liderança existe (e continuará a existir) em todas as lutas sociais e organizações – incluindo as mais inspiradas pelo anarquismo – porque algumas pessoas sempre tomam inciativa.
Liderança não necessariamente significa uma minoria elitista dando ordens de cima. Liderança é uma  relação. Quando você distribui um panfleto ou tenta convencer um amigo a participar de um protesto, você está fornecendo liderança. Mesmo uma greve espontânea ou protesto espontâneo tem líderes – alguém tem de ser a primeira pessoa a sair do trabalho ou fazer um discurso improvisado.

Aliás, o movimento anarquista sempre teve líderes. Desde Proudhon, Bakunin, Makhno, Goldman, e a CNT-FAI (Confederação Nacional do Trabalho – Federação Anarquista Ibérica – NdT) aos nosso ativistas anarquista contemporâneos, indivíduos e grupos específicos fazem panfletos, escrevem artigos, levantam reivindicações, chamam manifestações – em outras palavras, fornecem liderança.
A questão real é: qual tipo de liderança é necessária? De colaboração de classe ou de luta de classe? Liderança burocrática e autoritária ou liderança controlada por e diretamente responsável pelas fileiras?
Este é o ponto: as lideranças atuais reacionárias que presidem sobre o movimento dos trabalhadores não podem ser chutadas com uma “rejeição a liderança” abstrata, mas apenas criando uma liderança alternativa – não por alguns indivíduos “iluminados”, mas por centenas de milhares de ativistas revolucionários em todo o mundo dedicados à luta pela libertação da humanidade e organizados em torno de um programa político científico, o programa marxista da Quarta Internacional.
Apenas por meio do processo de empoderamento de uma revolução operária vitoriosa – e a subsequente florescência cultural e democrática produzida pela redução da jornada de trabalho e um sistema educacional vastamente aperfeiçoado – todas as pessoas serão capazes de preencher seu potencial e virar líderes em qualquer esfera de atividade que escolham.

Porque é necessário um Partido Socialista Revolucionário
Anarquistas argumentam que todos os partidos políticos – particularmente partidos socialistas revolucionários – são inerentemente “autoritários” e “hierárquicos”. Essas organizações, eles dizem, reproduzem as hierarquias da sociedade de classe e portanto são incapazes de levar a uma sociedade livre
Essa perspectiva parece plausível para muitos militantes por causa das suas experiências negativas com as chamadas organizações leninistas dos EUA, como a Liga Espartaquista ou o RCP – sem mencionar os horrores do Stalinismo. Mas esses grupos têm muito pouco em comum com o Socialist Organizer e a Quarta Internacional.
Vamos rapidamente clarificar quai a natureza real do processo marxista por um partido socialista revolucionário e, no processo, responder às objeções variadas dos anarquistas
A necessidade de um partido socialista revolucionário deriva do desenvolvimento desigual da consciência de classe entre os trabalhadores. Seções diferentes dos oprimidos vão radicalizar (isto é, se libertar das ilusões capitalistas) em diferente momentos porque a classe trabalhadora não é homogênea – existem diferenças de nacionalidade, gênero, orientação sexual, ocupação, etc
Portanto, trabalhadores e jovens que encontram as ideias revolucionárias mais cedo que seus pares precisam se  juntar em uma organização revolucionária para combater mais efetivamente nas lutas cotidianas pelo interesse dos trabalhadores e oprimidos como um todo, e ganhar mais pessoas para uma perspectiva política revolucionária científica.
É simples assim: algumas pessoas radicalizam antes que outros – e esses revolucionários (a vanguarda) precisam trabalhar juntos, sobre a base de um programa político efetivo, para ajudar o resto dos oprimidos a alcançar níveis mais altos de pensamento e ação política.
(É importante notar que enquanto organizações anarquistas não usam as palavras “partido” ou “vanguarda”, eles também tentam ganhar pessoas para suas ideias políticas – e, neste sentido, eles são tão inerentemente “vanguardistas” quanto as organizações marxista.)
Na realidade, não há nada “elitista” ou “substitucionista” em um partido socialista revolucionário. Uma organização socialista multinacional construída esmagadoramente por trabalhadores é da classe trabalhadora, não “de fora” da classe. Foi Marx quem disse “a emancipação da classe trabalhadora será obra dos próprios trabalhadores”

O papel de um partido revolucionário
Um partido socialista revolucionário não pode (e não deveria tentar) substituir um movimento de massa vindo da base da classe trabalhadora. O trágico exemplo de Che Guevara e as guerrilhas na América Latina mostra que uma revolução não pode ser feita por uma pequena minoria de radicais.
A espontaneidade é uma expressão essencial e positiva da resistência dos oprimidos. Mas, por causa da direção oportunista no nosso movimento e do prevalecimento das ideias capitalistas entre os trabalhadores, espontaneidade não é suficiente.
Enquanto uma organização revolucionária é importante em todos os estágios da luta de classes, seu papel fica mais decisivo durante crises revolucionárias. Os trabalhadores irrompem no cenário político com um sentimento definitivo de que “as coisas têm que mudar”, mas sem uma perspectiva clara de como essa mudança pode ser alcançada. Isso coloca um problema óbvio porque situações revolucionárias não duram muito – não mais que alguns dias, semanas ou meses no máximo. Há muito pouco tempo para fazer experiências ou aprender por tentativa e erro. Se os trabalhadores falham em atacar quando o ferro está quente, a desmoralização vai se infiltrar e a contrarrevolução vai tomar a iniciativa.
É por isso que um partido revolucionário – que aja como uma memória coletiva dos trabalhadores, passando a frente as lições aprendidas em lutas do passado – é necessário. Tentar lutar pela revolução sem o benefício dessas lições é como caminhar à noite sem um mapa ou lanterna e esperar que você eventualmente chegue ao seu destino.
Do mesmo jeito que o vapor precisa de um pistão para ser canalizado de forma efetiva, as insurreições massivas dos oprimidos só podem resultar em vitória quando existe um partido revolucionário que possa efetivamente prover um plano em direção à tomada do poder e possa ajudar o povo a superar todos os obstáculos no caminho.
Organizações anarquistas: consenso e ausência de
estrutura (horizontalidade)
Anarquistas que romperam com o individualismo puro promovem várias formas de organização. Vamos olhar criticamente a uma organização popular inspirada pelo anarquismo: o coletivo local ou “grupo de afinidade” baseado no consenso.
Para começar, ser uma organização puramente local – oposta a uma nacional – dificilmente é algo para se orgulhar. Os capitalistas se organizam nacionalmente. Eles tem o aparato repressivo do estado centralizado para lutar por seus interesses e a mídia nacional para espalhar suas ideias. Quando existe uma greve importante, por exemplo, os capitalistas e seu governo jogam o peso das estruturas e recursos nacional em apoio aos patrões. Você acha que podemos derrotar essa máquina massiva se formos menos organizados que isso?
Nós precisamos de organizações de massa nacionais para o nosso lado. Para vencer, nossa luta requer sindicatos de massa, um partido dos trabalhadores de massa, organizações de massa das nacionalidades oprimidas lutando por autodeterminação, e, combatendo dentro dessas organizações mais amplas, uma organização socialista revolucionária. Grupos radicais locais podem ser suficientes para tratar de questões específicas e para criticar o capitalismo, mas são insuficientes para resistir efetivamente ao capitalismo, ainda mais superá-lo.
Anarquistas contrapõem que essas grandes organizações inevitavelmente viram burocráticas e cooptadas. É verdade que é sério o perigo da cooptação: os capitalistas são uma pequena minoria da população e podem manter seu domínio apenas se colocam nossas poderosas organizações de massa em cheque, pela correia de transmissão de direções compradas.
Mas essa pressão corporativa constante pela cooptação na verdade testemunha o tremendo poder potencial das nossas organizações operárias de massa sob uma direção militante. (Compreensivelmente, os capitalistas vêem muito pouca necessidade de cooptar pequenos grupos de anarquistas.)
Da mesma forma, o perigo da direção irresponsável está presente em qualquer organização, tanto faz que ela tenha 10 membros ou 10 mil. Mas argumentar que qualquer organização de massa vai inevitavelmente ser burocratizada (“hierárquica”) é dizer que os trabalhadores são incapazes de controlar democraticamente suas organizações – uma ideia muito elitista, se você pensar a respeito.
Além disso os métodos  do consenso e da ausência de estrutura (horizontalidade) típicos em muitos círculos anarquistas,são qualquer coisa mesmo democráticos.
O processo do “consenso” é antidemocrático na sua essência. Ele permite que uma minoria intransigente (ou mesmo um único indivíduo) mantenha a maioria refém. Democracia organizacional real requer uma discussão livre e aberta, com o direito garantido de concordar ou discordar e não ser pressionado a aceitar a uniformidade, seguida pelo voto e decisão pela maioria. Mais, o método do consenso é muitas vezes elitista porque normalmente exclui trabalhadores, que não têm tempo para reuniões que duram quatro ou cinco horas… ou mais.
Sem uma estrutura organizacional transparente, você não poder ter responsabilidades, eleições regulares, revogação de mandatos, ou uma visão global coletiva sobre quais decisões foram implementadas. O que tende a surgir em grupos inspirados pelo anarquismo é uma “tirania da ausência de estrutura  (horizontalidade)” na qual aqueles  com os melhores grupinhos informais ou grupos de amigos são capazes de dominar o grupo.
Um exemplo clássico deste tipo de direção que não responde por seus atos foi a aliança secreta que o líder anarquista Mikhail Bakunin formou dentro da I Internacional no início dos anos 1870. Bakunin defendia que a ação espontânea das massas devia ser suplementada por um pequeno grupo de conspiradores revolucionários, como “pilotos invisíveis no meio da tempestade popular”. Ele escreveu: “nós devemos dirigir [a revolução] não apenas por qualquer força aberta mas pela ditadura coletiva de todos os aliados  – uma ditadura sem insígnia, títulos ou direitos oficiais, e mais forte por não ter nenhuma parafernárlia de poder”.

Anarco-sindicalismo e IWW
De todas as tradições políticas anarquistas, o anarco-sindicalimo é uma das mais próximas politicamente do marxismo.
Ambos vemos a classe trabalhadora organizada como a força-motriz central para a mudança revolucionária. Mas o anarco-sindicalismo pensa que os sindicatos são a única forma de organização necessária para a transformação revolucionária da sociedade. Marxistas pensam que o sindicato é crucial – mas não suficientes por si só para superar o capitalismo
Sindicatos são instrumentos de massa para todos os trabalhadores num dado local de trabalho ou indústria – trabalhadores de uma ampla gama de base política, de revolucionários a reacionários – para lutar por seus interesses específicos e direitos contra os patrões. Para efetivamente cumprir esse papel, o sindicato deve objetivar ser o mais amplo possível.
Essa amplitude resulta numa constante batalha de ideias dentro dos sindicatos. Para combater efetivamente os falsos dirigentes e a influência da burguesia no movimento dos trabalhadores, os revolucionários precisam intervir de uma forma organizada – isto é, através de uma organização socialista revolucionária
A experiência do Trabalhadores Indutriais do Mundo (IWW, na sigla em inglês), a influente organização sindical norteamericana no início do século 20, é muito esclarecedora. James P. Cannon – um dirigente do IWW que acabou sendo ganho para o marxismo – explica:
“Uma dos mais importantes contradições do IWW foi o papel duplo que ela assumiu para si. Não foi um motivo menor para o fracasso em que o IWW acabou chegando o fato de que tentou ser tanto um sindicato de todos os trabalhadores quanto uma sociedade de propaganda de revolucionários selecionados – em essência, um partido revolucionário. Essa dualidade prejudicou sua eficiência em ambos os campos.
O IWW se anunciou como um sindicato que incluiria todos; e qualquer trabalhador pronto para se organizar na base sindical cotidiana foi convidado à aderir, independente de suas visões e opiniões sobre qualquer outra questão.
O IWW em todos os momentos, mesmo durante greves envolvendo massas de trabalhadores ordinariamente conservadores religiosos, agiu como uma organização de revolucionários. Os militantes que realmente se organizavam ao longo de todo o ano no IWW foram apelidos de “wobblies” – ninguém sabe ao certo quando ou porque – e o critério para ser chamado assim é que defendiam o princípio da luta de classe e seu objetivo revolucionário, e estavam prontos para comprometer toda sua vida nisso.
Como um sindicato, a organização liderou muitas greves que inchavam a adesão momentaneamente. Mas depois que as greves acabavam, com vitória ou derrota, a organização estável do sindicato não era mantida. Após cada greve, a adesão voltava novamente aos quadros comprometidos por principio.
(Hoje) a massa dos trabalhadores industriais, pelo fato da sua existência, instintivamente se esforça em direção ao socialismo. Com uma direção de viés capitalista, são uma casa dividida contra si mesma, metade escrava e metade livre. A construção de uma organização à parte, partidária, da vanguarda socialista é a chave para a solução da contradição atual do movimento dos trabalhadores.
Os burocratas que estão no comando, que pregam e praticam a colaboração de classes, constituem de fato um partido pró-capitalista nos sindicatos. O partido da vanguarda socialista representa a consciência de classe. Essa organização significa não um racha do movimento de classe dos trabalhadores, mas uma divisão do trabalho dentro desse movimento, para facilitar e efetuar sua unificação numa base revolucionária.”

Prática Anarquista: “ação direta”
Outro ponto central de discórdia entre anarquistas e marxistas têm a ver com nossas perspectivas de ação direta.
Claro, a urgência de agir diretamente contra o status quo é completamente justificada. Mas a maioria das ações diretas dos anarquistas – como confrontos com a política, bloquear o trânsito, e “destruição de propriedade” (exemplo, quebrar a janela de um McDonalds) – não pode realmente “bloquear as engrenagens da máquina capitalista” (isto é, interromper a capacidade do sistema de funcionar).
Você pode cercar uma reunião do FMI e talvez até impedir que algumas delegações entrem – mas na próxima vez eles vão fazer uma teleconferência via satélite. Você pode bloquear o tráfico – e irritar algumas pessoas tentando chegar em casa do trabalho. Você pode quebrar a janela de uma Starbuck – e em alguns dias, a companhia vai ter arrumado, com quase nenhum arranhão no seu orçamento de bilhões de dólares.
As “ações diretas” anarquistas tendem a ser uma forma muito elitista de protesto, atraindo na maioria ativistas privilegiados, brancos, de classe média. Negros que encaram a brutalidade diária da polícia normalmente não estão ansiosos para dar aos policiais outra desculpa para bater neles. Trabalhadores não podem necessariamente se dar ao luxo de pagar as pesadas fianças por serem presos, ou perder um dia de trabalho para ir à justiça.
A orientação dos marxistas é centrada na mobilização dos trabalhadores – em particular seus setores mais oprimidos como negros, mulheres e jovens – porque trabalhadores têm um poder real: simplesmente não indo trabalhar, podemos fechar permanente qualquer negócio, cidade ou país. Greves, na nossa opinião, são ações diretas reais. Mas para chegar ao ponto em que os trabalhadores fazem greve, exércitos se amotinam, e outras formas de ações diretas da classe trabalhadora que estão na agenda imediata é primeiro preciso construir um movimento de massa.
É por isso que o Socialist Organizer muitas vezes promove protestos de massa pacíficos: eles são primeiros passos importantes para os trabalhadores se envolveram em causas de justiça social. E como mostraram o movimento contra a guerra do Vietnam e os recentes protestos pelos direitos dos imigrantes em 2006, estes protestos pode causar um grande impacto.
Nós também, às vezes, apoiamos a desobediência civil em massa ou a auto-defesa contra a polítcia, fura greves  ou racistas*. Mas nós o fazemos taticamente, caso a caso, como parte de uma estratégia de construir um movimento e mobilizar a maioria ao redor dos seus próprios interesses – não para permitir que pequenos grupos de jovens possam se sentir radicais porque quebraram uma janela.

Prática anarquista: eleições
Anarquistas e marxistas concordam que o estado atual é um instrumento do grande negócio e que o socialismo não pode ser introduzido pacificamente por meio de urnas capitalistas, como o trágico exemplo de Salvador Allende no Chile mostrou.
Mas aos contrário do que alegam os anarquistas, não é contra os princípios revolucionários apoiar (ou concorrer como) candidatos independentes nas eleições. Eleições são uma das poucas vezes que muitos trabalhadores se envolvem em discussão política. Nós precisamos de candidatos da classe trabalhadora independentes para falar sobre nossas questões, levantar nossas demandas, e mudar os termos do debate. Nós vemos as eleições principalmente como uma oportunidade de organizar e mobilizar.
Os “boicotes” anarquistas das eleições soam extremamente radicais, mas são essencialmente uma adaptação passiva ao sistema de dois partidos (Democratas e Republicanos, NdT): será impossível quebrar nossas organizações de massa e movimentos da sua subordinação aos Democratas até que seja criada uma alternativa política crível.
A maioria do povo trabalhador vai perder suas ilusões no estado capitalista não através da propaganda de pequenos grupos radicais, mas por meio de sua própria experiência na luta de classes e com a experiência de construir sua própria voz política. É por isso que o Socialist Organizer chama à formação de um Partido dos Trabalhadores, de massa, baseado nos sindicatos e todas as organizações dos oprimidos.

Conclusão
Uma boa crítica ao capitalismo é inútil sem uma estratégia efetiva para se livrar dele. Apesar de seus sinceros esforços e objetivos, anarquistas são similares a médicos que diagnosticam corretamente a doença de um paciente –  mas prescrevem a medicação errada.
Olhando para trás sobre seus anos inicias de atividade política, James P. Cannon lembrou elonquentemente:
“Nos meus dias de juventude, eu era muito amigável com os anarqusitas e era um anarquista eu mesmo, por natureza. Eu amava a palavra “liberdade”, a qual era a maior palavra no vocabulário anarquista. Os impulsos dos anarquistas originais eram maravilhosos, mas sua teoria era falha, e não poderia sobreviver ao teste da guerra e da revolução.
Meu impulso de ir até o fim com eles foi bloqueado pelo reconhecimento de que a reorganização da sociedade, que é o que pode tonar a liberdade real possível, não pode ser alcançada sem um partido revolucionário…a fusão dos instintos rebeldes dos indivíduos com o reconhecimento intelectual de que sua rebeldia pode ser efetiva apenas quando estão combinados e unidos em uma única força de ataque, que apenas uma organização disciplinada pode oferecer.”
Nós encorajamos todos os ativistas que querem efetivamente lutar por um mundo livre da opressão e exploração a se juntar ao Socialist Organizer. Nada menos que o destino da humanidade está em jogo.

Tribuna de Debates: Anarquismo versus Marxismo